terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Descobrir a pólvora
E guarda-la dentro de um copo d'água
Uma prática recorrente
Para viver sem mentir
Uma atitude insolente
Que permite ao homem se omitir
E continuar mostrando os dentes

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sinhá, vou lhe falar
Meu sangue é tão vermelho
Mas minha pele nunca há de corar
Você que me obrigou a neste dia
Trabalhar
Um dia espero que nao venha a se lamentar
Quando teu sorriso branco
Cheio de luz se apagar
E tua alma transparente se puser a enfim voar.
Zumbi... zumbi.... zumbido?
É só uma mosca no teu ouvido,
Deixa pra lá
Veste teu vestido
Este, que com minhas mãos, acabei de passar
E aproveite o feriado para poder passear
Que ao fim da tarde o meu ônibus vou correr pra apanhar
E pro meu lar eu vou voltar
Amanhã, você também vai enforcar?
Eu hei de bem cedo aqui chegar
Sua casa vou arrumar
Pra sua fome, cozinhar
Pra seu aceio, vou limpar
Também no sábado, pra sua casa vazia
Devo retornar
Domingo é de alforria
Boa noite
Bom dia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ouvi dizer
Que feliz
O homem não escreve bem
Que alegre
O homem não canta fortemente
Que contente não dança tão vivamente
E que quando dominado pela dor
Inspira-se
Sorri!
Que modo mais belo de ser triste
Chorando maravilhas
Resmungando melodias
Pisando nuvens tão macias
Pensei:
Será verdade tal leviandade contra a alegria?
Creio que não, meu bem.
Tal realidade
Seria com a felicidade
uma tremenda covardia.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Parte da população
No ano de 2014
Sedenta por repressão
Penso nas funções cerebrais
Nas conexões neurais
No eterno retorno
No apocalipse
Só encontro egoísmo
Como resposta
Mastigo
É difícil engolir
Penso na escola
No amor materno
No abandono
No caráter
Só acho egocentrismo
Como explicação
Salivo
É impossível deglutir
Parcela do povo
Desejando opressão
Querendo cabresto
Manifestando separação
Penso em Karma
Em vida passada
Penso na leitura
Penso no nada
Só encontro ego inflado
Como nexo
Vomito

domingo, 2 de novembro de 2014

Onde está minha família?
Nas células
Dentro do útero
Num gemido
Minha família encontra-se na sala de parto
Na de espera
No ouvido
Entre tilintar de bisturis
No choro
Num derramar de sangue
Num cordão
Num umbigo
banhado por nove dias no álcool
Minha família está aprendendo a andar
Mas seus joelhos ainda estão moles e com a mão apara o tombo
Minha família dorme no sofá
Está ainda aprendendo a falar
Está trocando as letras
Minha família escreveu seu nome ao contrário
E está tirando tudo de dentro do armário
Pra depois, novamente colocar
Minha família está esperando a neve cair
O frio apertar
E o dia do avião voar
Ela está falando outra língua
Está pensando se, quem sabe um dia ainda, poderá voltar
Minha família tem olhos de toda cor
Tem pele de todo tom
Está tentando cantar
Está na noite
Provavelmente bêbada
Acreditando que não precisa mais trabalhar
Minha família está procurando um lugar coberto na calçada pra deitar
Amanhã ela deve acordar com o sol em cima de seu rosto
E os passos de quem passeia no domingo vão a despertar
Minha família está comprando roupas
Esta guardando tudo dentro de alguma bolsa
Pra quando o neném chegar
Minha família está com sede
Está deitada numa rede
Esperando o tempo passar
Ela está dizendo por aí
Que ainda acredita num mundo mais justo
Ela está pensando em fazer um bolo de aniversário mais gostoso que o da loja do primeiro andar
Minha família é velha e vende mousse de maracujá
Está trabalhando duro
Está pensando no futuro
Está no presente sem se amedrontar
Está perto da praia
Está só na montanha
Está contando os dias para viajar
Minha família está aí há tantos anos
Está se separando
Esta procurando por um novo lar
Minha família está dormindo
Está indo
Minha família está vindo
E levantará sorrindo
Quem viver verá.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Abortaram-se todas as palavras
Abortaram-se as partículas inaladas
De quando as batidas eram mais apressadas
Abortaram-se todas as noites frias
E todas as tardes em brisas geladas
O verão já estava ali
Pedia à Deus que jogasse
sobre sua cabeça algumas gotas de sentido
Que sentia
Pois à noite, certamente choveria
E o calor vem sempre mais forte no outro dia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Seria bom se um verso
rasgasse a pele da minha cabeça
e fosse esfregando a caixa craniana
de modo a aliviar a dor,
enquanto escorre o sangue por cima da orelha direita.
Mas não, isso não vai acontecer.
Hoje alguém morreu com um tiro na Rua da Quitanda e eu não pude passar.
Não por respeito ao local da morte
E sim por ser preciso investgar.
Dei a volta e fui por uma rua estreita
Até a multidão acabar.
Alguém roubou, alguém morreu,alguém matou, alguém sentiu dor.
E nenhum verso de alívio
De nenhum crânio doído
A pele cortou.
Quem morreu, se foi bandido ou polícia, eu não sei.
A moça da lanchonete disse que por ela tanto faz como tanto fez.
No dia do professor
a morte me ensinou
que a vida é uma questão de múltipla escolha,
um dedo de sorte e indiferença,
mais uma vez.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Dorme no canto
Tão encolhido
Sendo mendigo
Aprendeu a dividir
sono com chão
Chão com sujeira
E com o cão
Assim, como se estivesse a sós
Aprendeu
A lavar-se no chafariz
A pedir moeda
Catar vícios
E comer qualquer coisa com a mão
Desistiu de dividir palavras
Emite sons que ninguém mais ouve
Ele está só
E quando cai a tarde
Quem o olha
pode pensar que virou uma estátua
De cobre coberta de chuva
Coberto à noite com pano de sombra
Quem o vê pode pensar
que ele está sonhando
Mas ele só acorda
Só, dorme
Só, come
Só, levanta
E só ocupa seu canto
Quem passa pensa que está roncando
Mas ele está só, respirando.

sábado, 13 de setembro de 2014

Nada mais justo
que dizer o que realmente pensa
para quem pensa que sabe o que você pensa.
Nada mais injusto
continuarem pensando
que você pensa outra coisa
depois de você ter dito
o que realmente pensa.
É uma prova de indiferença
que ninguém que fala o que pensa suporta.
Até que falar,
até mesmo um olá,
não importa.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Todo dia.

Todo dia
ouço um mundo falar
Pare de sonhar
Então me deito
Fecho os olhos e penso
Preciso descansar
E me aparecem crianças
E coisas estranhas
Que somem
E cores tão vivas
E nuvens
Um mar
Água cristalina
E gatos em caixas de fósforo
E músicas
Que viram ar
Preciso respirar
Sonhar
Mundo
Pare de falar.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Paciência

Me foi dado
Ouvir
E do som
Fez-se o verso
Que lhe foi dado
Sentir
Como efeito
O silêncio
Da música
Entedimento
Que não é dado
Moeda
Nem carta 
É condimento.
Só foi dado
Desistir
E do fim
Fez-se a saudade
Que nos foi dada
Ao partir
Como efeito
A insistência
Que não é dor
Nem é triste
Nem choro
Nem imundice
É só amor...
Paciência.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

neste mundo só
há um ponto só
onde fico em pé
com uma força
que gira ao redor do sol
se fosse pro espaço
levitando
que força me prenderia?
há uma força só
dentro de mim e só
das demais ando desviando
fujo da gravidade
e das outras ainda mais graves arrogante ideia tua,
passe mais tarde só...
que por hora,
a minha flutua.

domingo, 27 de julho de 2014

a cada nota
um poema
a cada falta
um dilema
a cada encontro
uma cena
a cada adeus
uma pena
a cada volta
uma reviravolta
uma canção se solta
e a vida fica plena
a cada medo
uma vontade queima
a cada segredo
uma verdade teima
a cada dia
uma preguiça de acordar cedo
me levanta após o meio dia
que a vida vadia
não é tão vazia
e como o poeta,
há muito já sabia,
dura até mais tarde
e não é pequena.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Vimos coisas belas
aves cheias de cores
tiram a atenção das flores
colam-se na fotografia
Entre frutas fora da janela
pela água doce
beijam plástico colorido
mas o meu olhar vai distraído
perto de um passarinho verde, escondido
que pousa no galho da árvore
mas não mora nela
Subimos pedras frias
folhas molhadas
escorregadias
só pra ver a água que caía
sem parar
meu ouvido ouve
seu cantar
o tato sente queimar
nem a lareira ardente
pode aliviar
a imaginação urgente
de quem vive a sonhar
lhe arrepia
quem morre
de quem sacode
quem quebra forte
como onda no mar
leve,
o vento lhe dizia.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

os amigos vêm de onde, menina?
vêm de dentro da gente
e saem dançando bêbados
queremos sê-los
quando choram dores
e também amores
quando correm sem sentido
abrimos nossos ouvidos
queremos diverti-los
e dar qualquer abrigo
seja dentro do peito
ou em nosso próprio leito
fazer com que gargalhem
de si ou de nós
ou ainda mais dos outros
que corram do abismo
virem-lhe o rosto
e lembrem que a vida pode ter sempre um maravilhoso gosto
vindo da próxima esquina

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Não meus amigos,
eu não vou falar sobre cocaína.
a droga q escrevo
destrói meu povo
de um jeito que ele nem imagina.
Aperta, bem lá no fundo do peito
e a dor logo nos incrimina.
Estampada no sorriso mais caro daquela menina muito bem vestida.
Não adianta tentar calar sua voz, porque dentro de nós
ela vem como pedra de gelo, endurece o resto de força que resta e te mata de medo...
Eu vejo de longe
aquele menor correndo
e não enxergo pra onde
Onde é que verdade te esconde?
Dizem que os meninos da rua suja não tem esperança
Quem vai pensar numa herança?
Quem liga para aquela criança?
Sabem de tudo,
não contam com nada
e o pé tá ralado
limpando o chão da cidade rasgada em mil pedaços
caindo no esgoto
vejo seu rosto
lembro do vício desgraçado
ah, desde o início
eu sabia que o mundo
não obedece princípios
só valores
ouvia de longe
o som dos comícios
e ninguém,
ninguém viu meus amores escorrendo daquela gente suada que foi chicoteada
bateu o tambor
e seguiu pela estrada
você,
trate de ir se defendendo
que ninguém está te compreendendo
veja aquele filme
o final feliz do bom moço
os livros continuam fedendo a mofo
a intoxicação
feita sem muito esforço
sinta as paredes cedendo
estão cedendo por dentro
e o dinheiro acabando
meu corpo vai se encostando naquela estante
vou encontrar meu remédio faltante
desligo a tela colorida
pra sobreviver nesse mundo
me reabilito o quanto antes.
Não, eu não vou falar da heroína
eu vou falar da substância pesada que corre dentro da sua inconsciência tapada
sim, acho que ela não foi descoberta pela biológica ciência inexata.
Te faz errar e acertar.
Acerta um tiro na cara de um semelhante qualquer,
erra uma bomba em cima de uma família que nem mesmo sabe o que quer,
deixa vender uma ilha pelo valor mais alto que puder .
Eles ali?
Eles vao comprar um peixe
e matar um porco no natal,
fazer uma salada pros vegetarianos não se sentirem muito mal,
mas o que importa é o presente.
Na rua ferve uma panela de sopa bem quente
e quem não tem família,
por favor, entre na fila com a gente.
O mundo tem jeito
mas esse vício
me mata todo dia com seu conceito
Agora eu escrevo
depois eu canto
você que me ouve
parado ou dançando,
o que nos aproxima
não é nenhum imã ,
nenhuma rima.
É que a sinceridade,
a sua, a minha e a da tal menina,
ainda que dependente
desse mal que destrói nossa mente, merece respeito
quando predomina.

sábado, 5 de julho de 2014

Um quarto pra deitar
esquecer do dia
esticar
sem bater os pés na parede fria
o barulho ao lado
quanta agonia
dormir
enterrar o rosto no travesseiro
e sentir do mofo, o cheiro
dos ratos, inalar os pêlos
encontrar um canto
pra fritar um ovo
e o estômago ruir
num prato fundo
cheio de passado
ainda existir
entre cabeças
que rolam pelo meio fio
se confundir
quem tem moradia
pare de reclamar
quem não tem,
trate de arranjar
mas se ele não conseguir
na rua é que não vai ficar
no lixo é que não vai dormir
isso é só pra quem entender
do que se trata o amar
então parem de o saco encher
e bem vindos sejam
ao meu doce lar

quarta-feira, 2 de julho de 2014

É preciso fazer esforço
diante do espelho
sacudir o rosto
dentro do olho
ver além do aço
não deixar vencer o cansaço
permitir o sonho ganhar do sono
e acordar.
O amor, à porta, não baterá.
A vida é mesmo
e sempre será torta.
corra
ainda que o tempo escorra
cate
até que o nó desate
o amor não vai nem volta tarde
só insiste
dentro do peito
o amor arde
A sós, desiste
fora do peito
nem existe.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Fomos prêmios?
Sim.
Mas fomos mais presente.
Fomos verdade,
ainda que diferente,
desde o princípio
e não, não fomos saudade...
Fomos todos os dias
e somos ainda
por estes, de algum suplício
Seremos ainda verdade?
À nossa!
De certo seremos coragem
pela estreita porta
do próximo presente
que seremos sempre.
Pra nós
Não seremos memória
Não seremos história
muito menos, dias de glória
pois seremos presente, simplesmente,
como fomos em passados,
como somos...
solitários
mãos que estendem
têm forças
que nem sempre entendem
Pra outros não seremos nada
talvez história
talvez memória
talvez vidas, sem nenhuma glória... mas o que importa
pra nós
é que isso realmente
Não importa.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Adeus orgulho
adeus
despeço-me sem saudade
adeus
o pouco que ainda aqui morava
há muito tempo que já se perdeu
oh Deus
não fará falta sua presença elegante
que aos outros ainda desperta o semblante
mas não mais o meu
Sei que não queres partir
pois dói
mas entenda que é como parir
não destrói
é a vida de dentro
nascendo pra fora
cicatrizando
de fora pra dentro
por isso digo adeus
de fora pra dentro
ao meu orgulho
que se vai rasgando
aqui costuro os pontos
e de fora pra dentro
os órgãos vão tomando
seus lugares devidos
até que o coração
não mais esteja esmagado
e possa ser melhor ouvido.

domingo, 22 de junho de 2014

eu
e meus crimes contra a humanidade
eu
e o abandono dos lares
eu
e o assassinato do indigente
eu
e o documento falsificado
eu
e minha pedra rolando morro abaixo
eu
e a verdade
que nem eu teria escutado
eu
e o coração partido de toda gente inclusive,
do eu.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

antibiótica vida
prevê a célula destruída
sob a ótica espremida
da carne em carne viva
antimetódica alma
supõe a nítida calma
sob a miragem mais alta
do som mais seco da palma
machucado mordido
mastigado moído
esfrega água sabão
e a casca coça
e a marca vira só mancha
e a pele de novo branca
pronta pra outro arranhão
se não houvesse nova rima
sempre uma outra saída
talvez eu perdesse a fé
na imutável utopia
de cada um ser só quem é
sem sentir tanta agonia
sem tanto peso no pé
só indo e indo e indo

sexta-feira, 13 de junho de 2014

corra sobre as pétalas da árvore
sobre as folhas da flor
sobre o néctar dos pássaros
sobre a sombra do sol
discorra sob a lembrança do sono sob a coberta dos ares
sob a embriaguez dos bares
sob o som dos fios de cobre
ande pela mudez dos passos
pela timidez dos compassos
pela pauta das máquinas
pela escuridão da lua iluminada desande pelo oposto do caminho pelo trilho das minas
pelo barulho da corda
pelo desembarque das pernas atadas

segunda-feira, 9 de junho de 2014

nenhum incômodo
de modo algum
respiro eu dessa palavra linda
só larvas aspiro
talvez um riso
no rosto liso, palidez
na cabeça, onde o nada existe
triste seria ter dele certeza
na doença, onde o resto finda
finca a crença
instinto de sobrevivência ainda
qualquer uma
uma qualquer
qual faz mal ?
traz qual paz?
o egoísmo ou a fé?

sábado, 24 de maio de 2014

suporta
remos incandescentes
em outros tantos
cálices de chuva fina
segura
remos farpentos
em tantas outras
armadilhas de tempestade de vento. molha
remos salgados
todos muitos
muros gelados dos mares
sobra
remos esfarelantes
mas não sopraremos
por essas curtas
náufragas
vidas entediantes.

domingo, 11 de maio de 2014

Viver
para sempre
despreocupadamente
preocupada
com os dias frios
com as madrugadas
com a tosse seca
ou a carregada
com o testa quente
com o pé gelado
com o dia longo
com a distante estrada
Morrer
para sempre
preocupadamente
despreocupada
com o que vem da gente
e segue só
quando a mão inocente
não pode mais ser dada
pois se a gente é gente
andando em direção a nada
e se quem nada é peixe
a gente vira é feixe
de uma outra vida
muito mais iluminada.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

pelo dia 04/05, pois eu não estava achando o rascunho...

Obrigado
por amar o mar
por cantar
por tocar as cordas
e embalar
por furar as ondas
Sem nos soltar
Esconder tesouros
pela fantasia
Não conter o choro
pelas melodias
Esquecer as letras
e as inventar
Por amar a liberdade
ainda que preso à realidade
Por deixar voar
Por deixar pousar
Por ter dado asas
e nos ensinar a dizer sempre obrigado

terça-feira, 6 de maio de 2014

eu
falo por mim
sobre os desejos dos outros
o poeta retira o grampo do papel
o ferrugem mancha suas incertezas
e não há desespero
porque?
todos tem outros sonhos
eu
digo por mim
sobre as vontades dos outros
o desenhista cola o durex no papel
a.cola gruda suas cores e sua beleza
e não há solidão
porque?
todos tem muitas fomes.
eu
escrevo por mim
sobre as falhas dos outros
o cantor corta a beirada do papel
a tesoura rasga suas sombras vocais de tristeza
e não há vazio
porque?
todos tem muitos nomes
eu
murmuro por mim
sobre os medos dos outros
o dançarino tira a bailarina do papel
as pernas fecham seus olhos
frente à correnteza
e não ha falta
porque?
até na água o ar se esconde
falo
sobre a necessidade de estar só
falo por mim
e sempre encontro os outros
porque?
há muitos quando ando por onde

sexta-feira, 2 de maio de 2014

não é como estou 
 é como gostaria 
é assim que o homem é 
 como gostaria 
 não é onde estou 
 é onde estaria 
 é ali que o homem fica 
onde estaria 
não é onde durmo 
 é onde dormiria 
é ali que o homem sonha 
onde acordaria.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

No frio é melhor não escrever
deixa o ar assim sombrio
o que quiser dizer que o diga
foram tantas notas
não me acorde, é tarde
as letras nesse ar mesquinhas
me esquivam da escrivaninha
não há mais caneta
Que eu não tenha pena!
quem comeu minhas ideias
sopre o papel.
Que ninguém se meta
com as coisas velhas
que mastigam veias
sem lhes ser cruel
que o dia seja
mais quente que a noite
que a noite durma
sem acordar o choro
derramado pelo
levantar do véu

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Jamais ouvirei dizer
novamente
sobre a minha inocência
eu aprendi a pensar no pior dos
outros
quem foi que ensinou...?
o pior não existia na ingênua idade
talvez o tenha descoberto tarde
logo, nunca mais ouvirei falar
sobre minha descência.

Resta dar glória aos falidos
às desmerecidas
glória aos que perderam a ingenuidade
e que o tempo torne a nós cada vez mais fodidas
e às cordas vocais dilaceradas
gritar sempre versos mais malditos.


 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Quantos sonhos morreram de preguiça

 acordei sem sono esta manhã

 um enjoo só

 um sol, morto iluminando o dia

quanto amor

 morrerá afogado na piscina

 todo desforme

 uma fôrma em sol lá si bemol

 um ponto e o centro do mundo

 cheio de linguas enormes

 carentes de tempo presente

 cama e colchão sem lençol.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Mais uma vez
desobedecerei
a ordem
desobrigo-me a acata-la
em nome de uma outra lei
Lei esta, desorientada e nobre
que não se rompe
nem com o silêncio
nem pela ameaça
da mão armada
nem por toda esta estupidez
 
Vi que não os convenci
vejo que não convencerei
ainda não enlouqueci
mas sei que confundi vocês
 
Destroços
sinto a lâmina fatiar meus ossos
pressinto o falso lamentar burguês
na cova posso
não bradar aos povos
mas em meus semelhantes novos
revivo outra vez.
 
Era pra ser um verso de amor
mas no lamento da dor
lembrei de um primeiro de abril
em que minha boca se fechou
virou então um poema
sobre a insensatez

sexta-feira, 28 de março de 2014

Há um mar no meu peito

 que em meus braços dorme feito criança

 deixa escorrer pela boca

sua baba por confiança

 há areia nos olhos sentados no parapeito

 há vento e há uma certa distância

 há receio

 e seios bronzeando os mares

 eu penso quando irá mudar o tempo

 quando inundará os lares

 pra dentro das janelas

eu penso quantos lugares

 sobram na platéia

 quanto falta pra eu despedaçar.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Ser sem limites para a vaidade
enquanto pensa como ser incrível
deixa sobre o papel a falta de coragem
 
O ser pode ser
mais profundo que sua vaidade?
pode
 
O ser pode livrar-se
da consciência?
não pode
 
religiões
teorias conspiratórias
perigo
 
esperando um lugar melhor
por medo do pior
proteção
nao levanto da fé
pra ajudar um irmão
não saio do abrigo
não vou deixar meu ganha pão
 
eu preciso suportar
não preciso então me levantar
sentado eu penso
como ser incrível
como sou incrível
como Deus é incrível 
a consciência mora na certeza
eis o dilema...
não resolve nenhum problema
ignora o aviso 
 
Seria angustiante
se Deus não existisse
não é mesmo?
 
Toda fé
com toda fé
faria o que?
 
Faria um café
pra tentar nem mais um segundo perder.





  
 

quarta-feira, 19 de março de 2014

São as melodias que doem
elas nos despedem
As melodias corroem
É o som que nos parte
As palavras vem junto
destroem a alegria da dor
e é tão bom deixar doer
deixar o tempo correr
e o dia passar sem ninguém saber.
Viver a sós seria bonito
Ver dias eternos
Sem adeus
Não é possível viver sem adeus
sempre diremos adeus
ao que jamais nos dirá
Não vou
Ao que não vai
Ao que foi
Da vida até no fim
Só nos olhos diz que é.
certeza que nos escapa
a cada vida nova
a cada história despedaçada
estúpida alma sem coragem
é a nossa.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Não posso mais escrever
não digo o que quero dizer
sou uma mentira atrás da outra
eu sou de mentira
eu sou um infinito de frases sem verdade
procurando sentido
 
Sou e somos
jamais não seremos
jamais seremos serenos
sou um poço
um poço que não transbordará nunca de águas
 
há uma fina camada que tenta mergulhar-se num balde
e voltar à superfície com ajuda da corda
mas, já em minhas mãos não é mais a água do fundo
já esquentou com o ar quente
é minha mentira  querendo ser
só querendo
e não sendo
nunca seremos.
 
Não posso mais escrever
é por isso que não posso mais
e ainda assim continuo
deve ser justamente também por isso.


 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Inoportunamente importuno 
aquilo que não importa
Me porto como me comporto
Vezes como porta
e sinto que reparto
Tranco e me reporto
De onde se transporta?
Bom é quando aporta 
em mim, mesmo que numa parte
de pequeno porte
e logo quando parte
e meu peito
explode 
parto como a dor
que importo
do seu peito pardo
espero que se importe.




 

domingo, 9 de março de 2014


Só por lamento
chamei minhas palavras.

Elas andam sonhando por aqui 
tão surdas...

até tentei de algum modo acorda-las,
mas estavam dormindo feito pedras tão duras,
que resolvi não me amolar com elas... 

Desafiada, 
pensei em jogar um balde d'água....
mas nesse frio seria uma tortura 

Deixo aqui, por isso, um poema cortado,
vou dormir com elas no pensamento

e só pra rimar escrevo apressado 


a que não dorme nem sonha nem precisa de tempo
nossa velha humilde 
cuidadosa loucura.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Querido mendigo,
peço que não me esqueça
embora minhas ruas estejam tão sujas
peço que não padeça
Lhe escrevo
para implorar
que não se esqueça
que não use chinelos
e deixe que no seu pé seja eu uma casca tão espessa
que não deixe os cacos de vidro cortar
que nenhuma agulha possa ferir
e nem um prego enferrujado faça gangrenar

não esqueça
não lave os cabelos
deixe-os absorver da chuva todas minhas impurezas
deixe que no couro eu me transforme
também em uma casca tão consistente
que consiga bloquear até mesmo dentro da sua cabeça
que nenhuma unha possa coçar
nenhum pente pentear
nenhum vergalhão tente atravessar
para que você não esqueça

não esqueça 
deixe o gosto da boca ser sempre amargo
não trague nada que não seja
um álcool passado
um perfume já estragado
uma guimba suja de qualquer cigarro
e deixe que eu ainda cresça entre seus lábios
desça pela garganta até o estômago
como uma dura carapaça
que não deixa que a fome lhe estremeça
só para que você não me esqueça

talvez no fim a morte seja mesmo só luz
e sejamos todos nós apenas primaveras azuis.







 


 

quinta-feira, 6 de março de 2014

 Uma poesia musical feita num instante.
 



Motivo:


 "... o instante existe... e
um dia estarei mudo - mais nada."
 
                 Cecília Meirelles
 
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Findo
ele deixou nas calçadas
as mesmas e outras marcas 
de tantos calçados
de pés suados 
que empurram o concreto nosso
de cada dia.


A cidade entregou-lhe a chave 
pra tentar sorrir 
e ainda ouve-se o choro
mesmo antes de olhar as cinzas 
estas que escorrem, não com a chuva
mas entre os pelos
dos que tentam mais uma vez amolecer 
os prédios sombrios cimentados

 
De longe ouve-se o pulso reclamar
e caladas vozes a gritar
vejo depressões em morros que um dia 
tentaram salvar o povo da tristeza 


Lá havia chuva derrubando cada telhado com alegria
via fantasia
e a via vazia se enchia 
de pulos e punhos castigando peles
pregadas a madeira
lixada por dedos desordeiros


Nas costas chicoteadas
o som do lamento sambou descalço
aquecendo as pedras que carregamos nelas para a passagem 

dos saltos nobres revestidos de couro ou pano
saias compridas quaradas ao sol de domingo 


Agora joga o asfalto por cima
que lhe pago com litro de leite
farinha feijão
e os carros desfilam purpurina
te cubro de pena colorida
não tenho pena do ronco da sua barriga
varre a rua até a esquina 
limpa a urina com a mão.


Não liga pro que disse seu professor
pois a vida é feita mesmo de dor
e o carnaval não agoniza 
mas o desfile já acabou.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Eu ficaria o dia todo lendo as cartas de 1800
os documentos mais deteriorados pela ação do tempo
eu passaria noites os descrevendo
eu passaria meses os desvendando
e perderia anos os higienizando
Eu não tenho interesse por notas fiscais
não quero saber das atas
nem dos contratos...
mas eu viveria nas cartas dos 1800
derramaria por elas minhas mais novas lágrimas
eu contrairia, por elas, uma crônica alergia
dormiria abraçada à suas lamentações e tristezas
acordaria respirando sua alegria.

só para morrer com suas mentiras
seu desaparecimento
e sua resistência
só pra encontrar letras atrás da fotografia


Eu vou espremer seu coração
até que não nos reste uma gota de suor
eu vou coloca-lo dentro de uma caixa
e enfeitá-la com um laço vermelho
e enterra-la junto às mais amarelas flores
e pretendo ouvir o som de uma clarineta
empurrando-a ao mais próximo do centro da terra
eu tentarei criar abelhas
e não ser envenenada por elas...


 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Dos ciclos do pensamento
é parte a crença no amor perpétuo
e por algumas horas me jogo
sem cordas no despenhadeiro,
no som das cordas
vocais ou artificiais
e das viradas,
não das noites,
mas das que lembram os açoites.
e ai é que aparecem as enzimas
fugindo de suas reservas
mastigando-se umas às outras
e o corpo findando...
a fome existe
no ciclo do pulsar
e é preciso correr para apanhar
o tanto quanto
seja necessário pra saciar
ali acaba o amor
o fim do ciclo
me apavora
mas isso também é parte
e logicamente, vai embora.


 
Parece uma passagem de tempo que não termina
ou objetos boiando na água do finito oceano
Poderíamos morar num planeta diamante
escorregar por montanhas brilhantes de grafite
sem desintegrar com o calor
Seríamos carne mais forte que o fogo
Seríamos jóias macias acordando cinza e sem água
e plantaríamos sementes de carbono
esperando colher uma flor transparente
que nos refletiria
em direção a uma estrela qualquer
E ninguém perderia mais nenhuma chance
Nem a de dizer
Nem a de não dizer.


 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014


Quando você soprará esse ar que lhe escurece?
Eu me canso e você está tão cansado...
então tire as mãos do bolso e vá passear
Eu não preciso escrever uma canção para estar triste
Isso é só pra me consolar
Pise no chão imundo lá fora
e volte quando acabar essa noite em que você vive
As canções não são só canções
elas vão consolar seu desespero
quando o dia estiver passando mais devagar...
eu vou escrevê-las
e ninguém às escutará
ninguém saberá dessa melodia
no vazio da noite
nessa casa vazia
e você não entende de ritmo
isso é bom pra você
mas você entende bem de letras
e é por isso que as minhas parecerão depressivas
porque eu não vivi há mais de cem anos
eu não vi as luzes da cidade que parece uma estrela
se acendendo pela primeira vez
nem soprei as velas que colocaram fogo nas suas cortinas
à meia noite
noite rima com melodia
eu a ouço quando passo por qualquer esquina
mesmo hoje as cidades sendo terríveis cometas
destruindo todos os neurônios que ainda restam na minha cabeça.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Andam confundindo
otimismo com passividade
alegria com um dia de calor
numa piscina de água fria
amor com parceria
Andam confundindo
ser feliz com rir à toa
andam difundindo
a vida boa
retratando a felicidade
em fotografia.
 
Andam escondendo a honestidade
em baldes de sinceridade propagandista
baldes de defesa da própria inutilidade
a falta de sensibilidade chegou ao extremo
de confundir a própria vontade com o alheio veneno.
 
Não sabemos quem somos
num mundo que sempre está a espera do fim
morreremos logo ali na esquina da Central
então que mal há em fazer o mal?
 
A única coisa que tenho a dizer sobre esta pergunta é:
 
Se faz inadiável
que chafurdemo-nos em busca da boa índole
 
 
Oh caráter
um sem definição
que se auto define 
no redundante ato de agir.



 

sábado, 15 de fevereiro de 2014


Só sentiria ausência tua 
se não houvesse essência
se não ouvisse na lonjura
o som da carência
Jura,
em pecado pra mim somente
que não some na rua escura
e me mostra esse olhar contente
de menino que atravessou o rio
por cima da ponte 


e bebeu sua água impura
e comeu a fruta madura
juntando os galhos soltos do chão
que sofreu com a dor de irmão
e sorriu em forma de luta.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A moça vai à clínica privada
fazer uma ultrassonografia
depois de tantas vezes tentar marca-la,
enfim chega o seu dia.
Na sala de espera lhe informam:
a sua médica não veio
podemos remarcar,
temos ainda o ano inteiro
a moça pergunta quem vai pagar seu tempo,
seu táxi, seu exame não realizado,
quem vai pagar sua melancolia?

aí estão as provas plenas e óbvias
de que privada foi feita para dar descarga...
mas há quem defenda com unhas e dentes...
não vê que ela é suja, contaminada...
dinheiro não é mesmo nada.
Ninguém pagará a conta da falta de saúde,
só o corpo doente, do rico,
do pobre, do culpado ou do inocente.
Só o corpo... E o dinheiro?
o dinheiro continua escorrendo pela descarga no banheiro.
Ainda estamos em fevereiro
O que é que há companheiro?
esse é o Brasil
seu Rio chora em Janeiro
esse ano só depois de março
só depois que passar o bloco
sobre a cidade dos corpos doentes
que deveriam ser feitos de aço.


 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Na zona sul, na zona sul, na zona sul
...Padrão
Na zona sul na zona sul na zona sul
...inadmissível!
na zona sul na zona sul na zona sul
...parece mentira
na zona sul na zona sul na zona sul
... a minha filha
na zona sul na zona sul na zona sul
...Acupuntura
na zona sul na zona sul na zona sul
...natação
na zona sul na zona sul na zona sul
...mata o ladrão
na zona sul na zona sul na zona sul
patroa
na zona norte, oeste, leste, sul
seu mundo jamais será azul
porque destoa...
ainda que ajuízem uma ação
pela alma sua
que na zona sul
se mova