segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Dorme no canto
Tão encolhido
Sendo mendigo
Aprendeu a dividir
sono com chão
Chão com sujeira
E com o cão
Assim, como se estivesse a sós
Aprendeu
A lavar-se no chafariz
A pedir moeda
Catar vícios
E comer qualquer coisa com a mão
Desistiu de dividir palavras
Emite sons que ninguém mais ouve
Ele está só
E quando cai a tarde
Quem o olha
pode pensar que virou uma estátua
De cobre coberta de chuva
Coberto à noite com pano de sombra
Quem o vê pode pensar
que ele está sonhando
Mas ele só acorda
Só, dorme
Só, come
Só, levanta
E só ocupa seu canto
Quem passa pensa que está roncando
Mas ele está só, respirando.

sábado, 13 de setembro de 2014

Nada mais justo
que dizer o que realmente pensa
para quem pensa que sabe o que você pensa.
Nada mais injusto
continuarem pensando
que você pensa outra coisa
depois de você ter dito
o que realmente pensa.
É uma prova de indiferença
que ninguém que fala o que pensa suporta.
Até que falar,
até mesmo um olá,
não importa.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Todo dia.

Todo dia
ouço um mundo falar
Pare de sonhar
Então me deito
Fecho os olhos e penso
Preciso descansar
E me aparecem crianças
E coisas estranhas
Que somem
E cores tão vivas
E nuvens
Um mar
Água cristalina
E gatos em caixas de fósforo
E músicas
Que viram ar
Preciso respirar
Sonhar
Mundo
Pare de falar.