sexta-feira, 28 de março de 2014

Há um mar no meu peito

 que em meus braços dorme feito criança

 deixa escorrer pela boca

sua baba por confiança

 há areia nos olhos sentados no parapeito

 há vento e há uma certa distância

 há receio

 e seios bronzeando os mares

 eu penso quando irá mudar o tempo

 quando inundará os lares

 pra dentro das janelas

eu penso quantos lugares

 sobram na platéia

 quanto falta pra eu despedaçar.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Ser sem limites para a vaidade
enquanto pensa como ser incrível
deixa sobre o papel a falta de coragem
 
O ser pode ser
mais profundo que sua vaidade?
pode
 
O ser pode livrar-se
da consciência?
não pode
 
religiões
teorias conspiratórias
perigo
 
esperando um lugar melhor
por medo do pior
proteção
nao levanto da fé
pra ajudar um irmão
não saio do abrigo
não vou deixar meu ganha pão
 
eu preciso suportar
não preciso então me levantar
sentado eu penso
como ser incrível
como sou incrível
como Deus é incrível 
a consciência mora na certeza
eis o dilema...
não resolve nenhum problema
ignora o aviso 
 
Seria angustiante
se Deus não existisse
não é mesmo?
 
Toda fé
com toda fé
faria o que?
 
Faria um café
pra tentar nem mais um segundo perder.





  
 

quarta-feira, 19 de março de 2014

São as melodias que doem
elas nos despedem
As melodias corroem
É o som que nos parte
As palavras vem junto
destroem a alegria da dor
e é tão bom deixar doer
deixar o tempo correr
e o dia passar sem ninguém saber.
Viver a sós seria bonito
Ver dias eternos
Sem adeus
Não é possível viver sem adeus
sempre diremos adeus
ao que jamais nos dirá
Não vou
Ao que não vai
Ao que foi
Da vida até no fim
Só nos olhos diz que é.
certeza que nos escapa
a cada vida nova
a cada história despedaçada
estúpida alma sem coragem
é a nossa.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Não posso mais escrever
não digo o que quero dizer
sou uma mentira atrás da outra
eu sou de mentira
eu sou um infinito de frases sem verdade
procurando sentido
 
Sou e somos
jamais não seremos
jamais seremos serenos
sou um poço
um poço que não transbordará nunca de águas
 
há uma fina camada que tenta mergulhar-se num balde
e voltar à superfície com ajuda da corda
mas, já em minhas mãos não é mais a água do fundo
já esquentou com o ar quente
é minha mentira  querendo ser
só querendo
e não sendo
nunca seremos.
 
Não posso mais escrever
é por isso que não posso mais
e ainda assim continuo
deve ser justamente também por isso.


 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Inoportunamente importuno 
aquilo que não importa
Me porto como me comporto
Vezes como porta
e sinto que reparto
Tranco e me reporto
De onde se transporta?
Bom é quando aporta 
em mim, mesmo que numa parte
de pequeno porte
e logo quando parte
e meu peito
explode 
parto como a dor
que importo
do seu peito pardo
espero que se importe.




 

domingo, 9 de março de 2014


Só por lamento
chamei minhas palavras.

Elas andam sonhando por aqui 
tão surdas...

até tentei de algum modo acorda-las,
mas estavam dormindo feito pedras tão duras,
que resolvi não me amolar com elas... 

Desafiada, 
pensei em jogar um balde d'água....
mas nesse frio seria uma tortura 

Deixo aqui, por isso, um poema cortado,
vou dormir com elas no pensamento

e só pra rimar escrevo apressado 


a que não dorme nem sonha nem precisa de tempo
nossa velha humilde 
cuidadosa loucura.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Querido mendigo,
peço que não me esqueça
embora minhas ruas estejam tão sujas
peço que não padeça
Lhe escrevo
para implorar
que não se esqueça
que não use chinelos
e deixe que no seu pé seja eu uma casca tão espessa
que não deixe os cacos de vidro cortar
que nenhuma agulha possa ferir
e nem um prego enferrujado faça gangrenar

não esqueça
não lave os cabelos
deixe-os absorver da chuva todas minhas impurezas
deixe que no couro eu me transforme
também em uma casca tão consistente
que consiga bloquear até mesmo dentro da sua cabeça
que nenhuma unha possa coçar
nenhum pente pentear
nenhum vergalhão tente atravessar
para que você não esqueça

não esqueça 
deixe o gosto da boca ser sempre amargo
não trague nada que não seja
um álcool passado
um perfume já estragado
uma guimba suja de qualquer cigarro
e deixe que eu ainda cresça entre seus lábios
desça pela garganta até o estômago
como uma dura carapaça
que não deixa que a fome lhe estremeça
só para que você não me esqueça

talvez no fim a morte seja mesmo só luz
e sejamos todos nós apenas primaveras azuis.







 


 

quinta-feira, 6 de março de 2014

 Uma poesia musical feita num instante.
 



Motivo:


 "... o instante existe... e
um dia estarei mudo - mais nada."
 
                 Cecília Meirelles
 
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Findo
ele deixou nas calçadas
as mesmas e outras marcas 
de tantos calçados
de pés suados 
que empurram o concreto nosso
de cada dia.


A cidade entregou-lhe a chave 
pra tentar sorrir 
e ainda ouve-se o choro
mesmo antes de olhar as cinzas 
estas que escorrem, não com a chuva
mas entre os pelos
dos que tentam mais uma vez amolecer 
os prédios sombrios cimentados

 
De longe ouve-se o pulso reclamar
e caladas vozes a gritar
vejo depressões em morros que um dia 
tentaram salvar o povo da tristeza 


Lá havia chuva derrubando cada telhado com alegria
via fantasia
e a via vazia se enchia 
de pulos e punhos castigando peles
pregadas a madeira
lixada por dedos desordeiros


Nas costas chicoteadas
o som do lamento sambou descalço
aquecendo as pedras que carregamos nelas para a passagem 

dos saltos nobres revestidos de couro ou pano
saias compridas quaradas ao sol de domingo 


Agora joga o asfalto por cima
que lhe pago com litro de leite
farinha feijão
e os carros desfilam purpurina
te cubro de pena colorida
não tenho pena do ronco da sua barriga
varre a rua até a esquina 
limpa a urina com a mão.


Não liga pro que disse seu professor
pois a vida é feita mesmo de dor
e o carnaval não agoniza 
mas o desfile já acabou.