quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Eu ficaria o dia todo lendo as cartas de 1800
os documentos mais deteriorados pela ação do tempo
eu passaria noites os descrevendo
eu passaria meses os desvendando
e perderia anos os higienizando
Eu não tenho interesse por notas fiscais
não quero saber das atas
nem dos contratos...
mas eu viveria nas cartas dos 1800
derramaria por elas minhas mais novas lágrimas
eu contrairia, por elas, uma crônica alergia
dormiria abraçada à suas lamentações e tristezas
acordaria respirando sua alegria.

só para morrer com suas mentiras
seu desaparecimento
e sua resistência
só pra encontrar letras atrás da fotografia


Eu vou espremer seu coração
até que não nos reste uma gota de suor
eu vou coloca-lo dentro de uma caixa
e enfeitá-la com um laço vermelho
e enterra-la junto às mais amarelas flores
e pretendo ouvir o som de uma clarineta
empurrando-a ao mais próximo do centro da terra
eu tentarei criar abelhas
e não ser envenenada por elas...


 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Dos ciclos do pensamento
é parte a crença no amor perpétuo
e por algumas horas me jogo
sem cordas no despenhadeiro,
no som das cordas
vocais ou artificiais
e das viradas,
não das noites,
mas das que lembram os açoites.
e ai é que aparecem as enzimas
fugindo de suas reservas
mastigando-se umas às outras
e o corpo findando...
a fome existe
no ciclo do pulsar
e é preciso correr para apanhar
o tanto quanto
seja necessário pra saciar
ali acaba o amor
o fim do ciclo
me apavora
mas isso também é parte
e logicamente, vai embora.


 
Parece uma passagem de tempo que não termina
ou objetos boiando na água do finito oceano
Poderíamos morar num planeta diamante
escorregar por montanhas brilhantes de grafite
sem desintegrar com o calor
Seríamos carne mais forte que o fogo
Seríamos jóias macias acordando cinza e sem água
e plantaríamos sementes de carbono
esperando colher uma flor transparente
que nos refletiria
em direção a uma estrela qualquer
E ninguém perderia mais nenhuma chance
Nem a de dizer
Nem a de não dizer.


 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014


Quando você soprará esse ar que lhe escurece?
Eu me canso e você está tão cansado...
então tire as mãos do bolso e vá passear
Eu não preciso escrever uma canção para estar triste
Isso é só pra me consolar
Pise no chão imundo lá fora
e volte quando acabar essa noite em que você vive
As canções não são só canções
elas vão consolar seu desespero
quando o dia estiver passando mais devagar...
eu vou escrevê-las
e ninguém às escutará
ninguém saberá dessa melodia
no vazio da noite
nessa casa vazia
e você não entende de ritmo
isso é bom pra você
mas você entende bem de letras
e é por isso que as minhas parecerão depressivas
porque eu não vivi há mais de cem anos
eu não vi as luzes da cidade que parece uma estrela
se acendendo pela primeira vez
nem soprei as velas que colocaram fogo nas suas cortinas
à meia noite
noite rima com melodia
eu a ouço quando passo por qualquer esquina
mesmo hoje as cidades sendo terríveis cometas
destruindo todos os neurônios que ainda restam na minha cabeça.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Andam confundindo
otimismo com passividade
alegria com um dia de calor
numa piscina de água fria
amor com parceria
Andam confundindo
ser feliz com rir à toa
andam difundindo
a vida boa
retratando a felicidade
em fotografia.
 
Andam escondendo a honestidade
em baldes de sinceridade propagandista
baldes de defesa da própria inutilidade
a falta de sensibilidade chegou ao extremo
de confundir a própria vontade com o alheio veneno.
 
Não sabemos quem somos
num mundo que sempre está a espera do fim
morreremos logo ali na esquina da Central
então que mal há em fazer o mal?
 
A única coisa que tenho a dizer sobre esta pergunta é:
 
Se faz inadiável
que chafurdemo-nos em busca da boa índole
 
 
Oh caráter
um sem definição
que se auto define 
no redundante ato de agir.



 

sábado, 15 de fevereiro de 2014


Só sentiria ausência tua 
se não houvesse essência
se não ouvisse na lonjura
o som da carência
Jura,
em pecado pra mim somente
que não some na rua escura
e me mostra esse olhar contente
de menino que atravessou o rio
por cima da ponte 


e bebeu sua água impura
e comeu a fruta madura
juntando os galhos soltos do chão
que sofreu com a dor de irmão
e sorriu em forma de luta.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A moça vai à clínica privada
fazer uma ultrassonografia
depois de tantas vezes tentar marca-la,
enfim chega o seu dia.
Na sala de espera lhe informam:
a sua médica não veio
podemos remarcar,
temos ainda o ano inteiro
a moça pergunta quem vai pagar seu tempo,
seu táxi, seu exame não realizado,
quem vai pagar sua melancolia?

aí estão as provas plenas e óbvias
de que privada foi feita para dar descarga...
mas há quem defenda com unhas e dentes...
não vê que ela é suja, contaminada...
dinheiro não é mesmo nada.
Ninguém pagará a conta da falta de saúde,
só o corpo doente, do rico,
do pobre, do culpado ou do inocente.
Só o corpo... E o dinheiro?
o dinheiro continua escorrendo pela descarga no banheiro.
Ainda estamos em fevereiro
O que é que há companheiro?
esse é o Brasil
seu Rio chora em Janeiro
esse ano só depois de março
só depois que passar o bloco
sobre a cidade dos corpos doentes
que deveriam ser feitos de aço.


 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Na zona sul, na zona sul, na zona sul
...Padrão
Na zona sul na zona sul na zona sul
...inadmissível!
na zona sul na zona sul na zona sul
...parece mentira
na zona sul na zona sul na zona sul
... a minha filha
na zona sul na zona sul na zona sul
...Acupuntura
na zona sul na zona sul na zona sul
...natação
na zona sul na zona sul na zona sul
...mata o ladrão
na zona sul na zona sul na zona sul
patroa
na zona norte, oeste, leste, sul
seu mundo jamais será azul
porque destoa...
ainda que ajuízem uma ação
pela alma sua
que na zona sul
se mova
 
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Venha com toda sua justiça
e diga aqui diante de nossos olhos
o que é ser bom e o que é ser mau.
Depois corra para a primeira esquina
espere ser assaltado por um pivete
e corte a cabeça dele com sua navalha
mais cintilante sob o sol,
não, não espere que a lua esteja no alto do céu
faça agora, ao sol
para pingar todas gotas da água limpa
que você bebe e transforma em mijo
todos os dias, do mesmo modo
que lambe e se satisfaz na cama dos bons de cama
dos bons de cama, mesa e banho
aqueles que lavam seus pés enquanto jogas
 uma fonte de alegria pela janela do seu quarto.
Se o mundo fosse dividido entre pessoas boas e más
primeiramente, o mundo não existiria
e caso existisse, ninguém gostaria mais de um bicho
que de um bom filho da puta.
 
 
Leticia Frederico

 

 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A mulher magra com uma barriga 
feita toda de lombriga e órgãos se desconstruindo

toma o resto de sorvete que encontra na lixeira laranja 

enquanto falamos da falta de senso de comunidade 
dos partilhadores de dia a dia da cidade.


Que senso sem sentido discutimos 

enquanto só queremos destruir a fome...


Sentido algum sobrevoa a rua cheia de migalhas 

ruminadas pelos camelos desérticos que somos,

moídos num triturador de mentes 

que desola o minúsculo grão de esperança 

plantado um dia pelas mesmas bocas 

cheias de fome e desilusão 
em nossas sorridentes cabeças de criança.

As lombrigas continuarão fazendo a festa dentro dela
e dentro ou fora dela desaparecendo... 

Será que queríamos mesmo pegar todos aqueles filhos de gente
e dar o amor que temos supostamente?
Continuamos a destruir a fome por nós 
e o outro é só um outro
fazendo a festa pelo que atormenta 
seu estômago involuntariamente.


Leticia Frederico

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Uso tanto a palavra palavra
mas principalmente quando 
me falta palavra para ser usada
e a palavra usando-me deixa-me atada,
não pode ser dita, tampouco deixada.
É necessário não escrevê-la, 
é preciso mantê-la calada.




Leticia  Frederico
Como no silêncio
acordo no calor
livre nessa sombra
exposta à madrugada
me sobra a nuvem evaporada
atrás dela sol nenhum irá se pôr
nem nascer.
Por raio amordaçada
resta do meu corpo só a chuva
e a palavra cai desperdiçada
toda encharcada
murcha de vazio 
a vista aqui procura 
em cantos mais escuros
pela voz mais justa
pela cor mais viva
pela mão mais firme
mas não encontra nada.


Leticia Frederico