quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

É aquilo que precede a materialidade que não pode ser roubado.
 
O que antecede a ação ficará guardado em algum espaço imaterial, talvez na sua consciência,
talvez na memória alheia... seja o bem ou o mal.
 
Os fins não justificam os meios, definitivamente.
 
Os meios justificam o caráter e ponto final.
 
                                                                                                          
 
 
                                                                                          Leticia Frederico

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Hoje é dia
também é tarde
noite fria
quente
quem sabe?
Hoje é dia
de quem guarda documento
de quem cuida da informação
de quem livra um tormento
de quem expõe o coração
de quem embaralha a vista
de quem pensa e não tem meta
hoje é dia de arquivista
hoje é dia de poeta.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

E todos aqueles que desejaram o mal
daqueles que mereciam o mal 
serão amaldiçoados
por alguém a quem o mal fizeram um dia
 
E tudo isso não resultará em nada
A maldição,
assim como Deus
e assim como o Diabo,
mora dentro do peito
e explode vazia
não passa de um direito
de quem sente dor
ou faz poesia
e morre esquecida
com o nascer de uma nova alegria
 
 
 
 
 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Como porto, uma dor
a guerra é a dor,
um porto
na guerra invisível.
Como porto,
respirar o oceano
a dor é invisível
um barco 
o navegar é impreciso
é lutar
é respirar mar
é um amor invisível
sufocar na areia,
um corpo,
essa guerra.
A morte:
um porto
invencível.
Abraçar 
um morto
abrir os olhos
chorar
enterrar
um homem
um mar
há um porto 
depois do corpo morto?
há uma porta
depois da areia?
há vida depois da guerra?
há amor na Terra
e um porto na areia 
Quantos corpos cabem dentro de uma baleia?
Quantas guerras cabem dentro de sua cabeça?
 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Eu, que jamais tive um osso do corpo quebrado,
só tenho um coração despedaçado
por essas mãos cheias de dedos


Jamais sofri sequer uma torção
em nenhum músculo
nem leve
em nenhum tendão
sinto minhas veias tortas
por olhos cheios de cílios
bocas cobertas de teias
pés que não saem do chão


vidas mortas.


                               
                                                 Leticia Frederico

sábado, 4 de julho de 2015

Ontem após um dia de trabalho vinha eu andando pelo centro do Rio e passei por um acontecimento.
Um policial segurava pelos braços um menino que devia ter 10 ou 12 anos.
Eu olhei para o seu rosto e naqueles dois segundos eu pude ver seus olhos.
Seus olhos diziam: eu não quero estar aqui, eu não quero ser eu.
Eu pude ouvir os olhos dele me dizendo estas palavras.
Enquanto os olhos do menino conversavam comigo outro policial dizia: "o outro correu pra lá, fugiu de mim... vai roubar lá na frente" duas moças (as que foram roubadas) olhavam nervosas na direção que o policial apontava e falavam coisas que eu não entendi.
Continuei meu caminho e dois homens iam um pouco na frente comentando com fúria o caso: " ... eu não tenho pena, esses garotos, podem ter 10, 12 anos, tem que pegar e matar. Não tem jeito.
Talvez um em cem tenha jeito.... mas o maior culpado é o estado pq quando essas mulheres que tem uma penca de filho nesses lugares pobres.... o estado tinha q deixar arrancar logo, mata ! ... aí depois tem que gastar dinheiro com escola pra essa gente, com saúde. ... porra e a gente paga pra sustentar essas merdas."
O outro só concordava.... não sei nem se ouvia ....
eu fui andando e lembrando do menino enquanto o homem falava essas coisas e pensei:
essas mulheres que tem uma penca de filhos?
O estado tinha que mandar arrancar?
As mulheres fazem filhos sozinhas ? Arrancar do útero da mulher aquela criança, pois o homem não depositou seus espermatozoides dentro dela, as mulheres são amebas que se autoreproduzem?
Sinceramente.... eu entendi pq a maioridade penal foi aprovada, pq o Bolsonaros e Felicianos são eleitos, pq tacaram pedra na menina do candomblé, e todos os males mais que cidadãos de bem praticam todos os dias.
Quem aquele menino quer ser, onde ele quer estar ?
Essas pessoas não conseguem entender.
O machismo corrompeu seus neurônios, não foi Deus, não foi o Diabo.
Foi o preconceito que comeu seus cérebros.
É seu umbigo que come seu coração.
Mas eu abro as janelas da minha casa e espero aparecer um raio de sol que desperte o amor, uma gota de esperança afoga todo oceano de ódio que existe nesses corações comprimidos ...
o amor sempre será maior e é por isso que ainda existimos meus queridos irmãos.
Eu posso tirar um menino daquele lugar e não é levando para cadeia nem levando para casa.
Enquanto houver uma possibilidade em cem , em mil, em um milhão, de uma criança estar onde ela deve realmente estar, eu vou acreditar nela.
Fora disso, não me peçam para Ler a bíblia nem para deixar deus entrar na minha vida.
Quem deseja a morte ou a prisão de uma criança não conhece nada sobre Cristo.
Não sabe de Deus.
Não entende nada de amor.

sábado, 20 de junho de 2015

Sei lá

Não sei se existe
Uma força
uma luz
um nada
Santos
Ou Orixás
Deuses
Demônios
Seja lá o nome que tenham essas coisas
Um Deus ou uma Deusa....
Oxalá...
Não sei
A única coisa invisível que existe para mim é minha consciência e ainda assim, vez ou outra, nem disso tenho certeza.
Isso não é fé
Nem religião
Não é ópio
Não é nem opinião
Não é pergunta
não
Isso é poesia
Há quem leia
Há quem nem queira
Quem cante
E quem recite
Você odeia?
Isso não é resposta.
Isso é esperança
E o melhor é que tem muita gente que gosta

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Você que amou o provável
o possível 
esperado
ao alcance
tocou com as mãos 
o palpável
o seguro
virtuoso
admirável
na medida
insuperável
o permitido
amou o desejável
o preciso
o concreto 
o almejado.
Não amou.

Tu que amaste o indefinido
desfrutável
a fruta caída ao chão
coberta de nuvem de insetos
imperfeita
machucada
suco quente para vespas famintas
traidoras 
intragáveis
sem terra 
sem teto
o vazio do céu
onde se vê estrelas
o que pode tocar o vento
a injúria
malquisto
querido gosto doce de sonho
destoante 
desabrigo
as paredes de abraços que seguram tempestades 
o a mais
o de mais
que sobra...
tantos ais.
Amaste.

                             Leticia Frederico

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Olhe bem para estes números

eles não irão lhe enganar

uma unidade, uma dezena, uma centena, um milhar

estamos sozinhos

tudo caminha só

virando sempre um

basta matematicar

Não adianta tentar somar

você não pode levar tudo nas mãos

acaba colocando em uma sacola

em uma caixa

em uma estante

em um lugar

ainda que venha a se espalhar

é uma sujeira

uma besteira

uma bagunça

uma ideia

um cansar.

Mesmo que você diminua

é um tamanho

um pedaço

uma boca

uma eterna esperança

um despertar.





                                    Leticia Frederico

terça-feira, 26 de maio de 2015

Então
esta é uma nova versão
como se faz com uma velha canção
Da realidade
contada por cada individualidade
que sempre se torna uma novidade
e existem tantas verdades
como muito bem se sabe
Cada um tem sua versão
cada um com a sua diversão


E ai aparece o menino que sofreu
a moça que enlouqueceu
o gato que comeu
e o homem que se fodeu 


E ai aparece a menina que salvou
o rapaz que concertou
o passarinho que ressuscitou
e a mulher que vingou


Então
este é um novo refrão
como se faz quando aquele não ficou bom
Da vida
vivida por cada um
que sempre se torna uma nova oportunidade
e existem tantas vontades
como muito bem se oprime
E ai a de aparecer o menino que não mais se importou
a mulher que enlouqueceu de novo 
o passarinho que voou e botou um ovo
o gato que comeu o passarinho dentro da gaiola
e o homem que escreveu um livro sem rima
e compôs uma moda de viola.


                                                Leticia Frederico









segunda-feira, 11 de maio de 2015

Satisfaz a vontade do próprio ego
dando satisfação à todo e qualquer cego
que não dá a mínima para tal história 
e no gerenciamento eletrônico da vida
vão tomando pelos olhos nossa sobrevida.


Satisfeito o prato
a fome come crua
satisfeita a foto
o fato cai na rua
a cara expõe o quadro
e a falta continua


não dê tanta mão à esta palmatória
que só de ida
é o caminho,
eu prego,
a estrada é sua
só sua
e só.









segunda-feira, 27 de abril de 2015

Ah, esse velho ditado
de que cada um colhe o que planta
a maior mentira enlatada
da maior das maiores crianças
Posso plantar um pé de amor
e morrer de dor
não por não regar
e sim porque o sol rachou
tantos solos rachados
ou inundados
amores evaporados
ou afogados
todos farinhas no mesmo saco.


Ah, esse velho ditado
quem planta tomate, não colhe caqui
plantei um pé de tomate e não colhi tomate
nem caqui
colhi um cacho de folhas paradas
e olha que semeei bem o vento
nenhuma tempestade,
nenhum raio eu vi.


Ah, esse velho ditado,
não vê que não quero colher...
eu sou um pássaro
eu nem sei o que é uma semente
eu nem sinto o cheiro do pólen
se é que o pólen tem cheiro
eu sou uma qualquer coisa sem jeito
e existem flores até no deserto,
ninguém precisou cavar


Ah, esses velhos deitados...
vamos levantar!


Leticia Frederico



quinta-feira, 12 de março de 2015

Nada não existe
é por isso que fotografo o arco-íris

É por isso que a menina que mora na calçada
pendura seu lençol no poste e grita
"Olha o arco-íris pessoal... olha que lindo o arco-íris"

é por isso que caminhamos
é por isso que a vida continua
e é por isso que é invisível
intocável
imensurável
é incobrável
Não existe nada.



 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Quando um livro é lido
Uma pequena lãmpada é acesa dentro da nossa cabeça
Mesmo que depois de um tempo você se esqueça
Ilumina seu cérebro antes que tudo ao redor escureça
Seus dias, são outras histórias
São suas melodias, tristezas alegrias e glórias
Mesmo destruídos passados sempre são concluídos
Reinventados só serão na memória Seletiva
Construída todo dia
É só mesmo a sua vida
Resplandeça desobedeça e continue rimando
Lendo Obedecendo a lei do pôr e nascer do sol
Continue continuando
Ou partindo do nada, seja como você chame a existência
Ainda que para o nada
A essência é contínua
Se você não acredita
Deite-se na ferrovia
E espere o próximo trem
Eu estarei em alguma padaria
Comendo pastel de Belém
Nessa mesma hora estará nascendo algum neném
E um choro de felicidade de alguem será ouvido também.