sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

É fácil dizer adeus ao velho
e o novo vem vindo tão ultrapassado
com seu discurso cheio de método,
cheio de razão.
Adeus meu velho,
não se jogue pela janela do décimo
não diga que fomos selvagens
em te expulsar do prédio
sem tempo de apertar sua mão
viemos cortando as pernas
cortaremos sua carne agora
vai-te embora com sua memória
que deixaremos ali de lado,
de preferência no porão.
Você já deveria ter ido ha tempos...
eu sei tudo
não se esqueça,
eu sou o novo,
eu e meu umbigo.
Aproveite o que lhe restou de vida
siga meu experiente conselho de homem vivido
eu sou o novo
daqui a dez anos procurem-me no arquivo
hoje, eu sou o novo
e tenho dito.

 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014


Eu mereço qualquer coisa
por isso abri os braços
e todas as coisas que tinham olhos
colocaram seus olhos na minha alma
e meus dias foram repletos de espera
e coisas cegas colaram-se em minhas paredes,
tornaram-se belas
e pude toca-las com meus dedos
mancharam meus pensamentos
e apagaram-se com a noite
Mas as manhãs foram iluminando-as
e as coisas saíram para passear
e nunca mais voltaram
Então abri os ouvidos
para os olhos que repousavam na alma
eles piscavam para mim
de modo brusco e ao mesmo tempo lento
e diziam o que havia lá dentro
explicaram como todas as lágrimas escorriam e limpavam
de modo que tentar segurá-las seria um erro com o tempo
As coisas com olhos pareciam
ter deixado só os olhos para trás
quando foram descobrir suas recompensas
seus olhos ficaram nadando dentro dos fluidos da alma
e por isso é que hoje os olhos se desviam
quando as coisas se aproximam.
Há um tempo em que as coisas
carregam a alma nos olhos,
a este tempo damos o nome de paixão
passado este tempo as coisas colam seus olhos na outra alma
e é impossível retirá-los de lá
e então eles já não as pertence,
não aqueles.
Aqueles olhos podem ser chamados de amor
os olhos colocados na alma
os que estavam-na carregando e oferecendo-a na paixão,
ali eles ficarão. 
E a alma possui tantos olhos quanto forem as coisas
que tenham olhos para carregar alma
e então outros tantos nascem e os colo nestas
e os deixo lá
e lá eles explicam tudo mais que deva ser explicado.
Por isso mereço qualquer coisa
e há uma coisa que jamais colará seus olhos em minha alma
há só uma coisa
uma coisa à qual oferecerei minha alma nos olhos todos os dias
e esta coisa não tem olhos, nem boca, nem dedos
esta coisa está escrita
na pele de alguém que tem os meus e outros olhos colados na alma
escrita por alguém que ofereceu sua alma nos olhos
e foi lida por meus olhos oferecidos
e eu mereço qualquer coisa
e escrevo uma coisa qualquer
para qualquer coisa que olhar vier


Leticia Frederico










 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Falo como alguém
que nao tem olhos
e perdeu os tímpanos. 
Errado,
respiro.
Me retiro,
fecho a casa para os bandidos.
Equivocado, medo contínuo
deixo chave nos cadeados
entraram por todos os lados,
ouvimos.
As plantas na terra molhada secaram
como as lágrimas do menino.
Os ventos estão parados
devem estar adormecidos
estão ficando cansados,
os homens
e os sentidos.
Parte do texto
morre no meio do caminho,
da outra parte
dorme perdido.
Mas há sempre uma fresta
um espaço contido
esperando o vento
soprar na testa dos esquecidos.
esperando a mão empurrar a porta
e entregar a palavra morta
aos dedos envelhecidos.





Leticia Frederico

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Os mentirosos conhecidos e desconhecidos
podem ser amados,
mas estão tão empobrecidos...
tem sabor amargo em seus lábios estremecidos.
Eles estão rindo,
mas do que eles estão rindo?
perguntam ao vê-los na linha do trem virado
 
Eles estão rindo como muitos daqueles
que não precisam pôr a mão na massa
os da esfera pública e também da privada
estão rindo como os que têm seus bolsos cheios
e as mãos perfumadas
como os que têm da sua falsa verdade
a cara mais lavada
como os que cresceram e aprenderam
que seu país é uma grande piada
o que pergunto é se terão sempre travesseiros
para suas consciências pesadas...
 
 
Leticia Frederico

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Até fazer o que mais te agrada
enjoa e esbarra na falta de sílaba,
a letra, tua fonte sagrada,
dorme nos vãos das pedras portuguesas, 
caída como frutos
do acidente em cima dos viadutos,
é caco brilhante de vidro espatifado
neste centro mendigo, 
alheio como teus passos
nobre como teus indigentes antepassados
inconfundível e sublime
como as formas de um artista
tão pouco inspirado...
não há nada que mais desanime.
Elas vêm subindo pelos bueiros mais fétidos
como ratos cheios de fome e desejo
entranham as narinas tuas
e das sombras que se moldam às ruas
desprendem os parafusos dos velhos canos ainda em uso
e inundam teus pés de medo
medo da vida, da morte e do desespero
são chamadas musas dos que têm pelo mundo fiel apego
colocam-nos a descrever a vida
a vida como em nossa cabeça habita
a vida que é feita de despedida e sorte desconhecida
Alguns tentam inventá-la de modo bonito e simples
a vida dando voltas no tempo
a vida crescendo, permanecendo altiva
a vida sobrevivendo
e quem se importa em descrever a morte
vira um ser de odor insuportável e mórbido
que mora escondido do mundo
que vive excluído de tudo
mas quem disse que a morte dói?
se  eu de olhos abertos sinto doer a facada
 se tu sentes o vazio dessa vida a que chamam de estrada?
Tentam entender as verdades
as humanidades
tentam inventar outras realidades
Eu não pretendo morrer,
 sinto que morrerei amanhã
mas não o pretendo
pretendo sentir ainda dor
sofrer de saudade
e pretendo que não tentem me inventar nenhuma outra realidade
pretendo que entendam que não há outra realidade
os meus pés são inundados todos os dias por elas
e por elas escrevo com dedos que serão um dia apenas pó
elas nos inundam e nos levantam para fora do esgoto
para que observemos quanta mentira há na terra do ouro.


Leticia Frederico
 
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

À noite, em prece lhe fiz um poema
um texto, um livro, um filme de cinema
e fiz deles todo meu planeta
que abre-se com o sorriso de sua boca pequena.
Meu mundo que procuro quando você está longe
o mesmo que, quando ouço seu choro,
parece precisar de colo.
É como sinto meu mundo
é como ele se apresenta na frente
ou dentro dos meus olhos
Através dos seus grandes sentimentos
de miúdo ser em desenvolvimento.

Em prece lembrei de quando está doente
todo meu mundo precisa de cuidado
precisa ser abraçado com a força que brota
dos meus fracos braços cansados
precisa ser levado com urgência ao médico
ou mesmo ficar quieto em um canto sossegado.
e quando sinto as pontas do egoísmo
em sua voz de manha ou grito irritado
acho que o meu mundo precisa de um castigo
meu mundo todo precisa ser logo ajeitado.

Pensei, em prece, como você crescerá
antes que o sol possa fazer estragos em minha pele
e em prece pensei como acordará um dia desejando
descobrir o segredo da vida
e lhe disse como é bom olhar as estrelas
e querer saber de onde vêm elas
e se sujar com grãos de areia
e lembrar do formato e das cores diferentes que cada um carrega
e saber que cada um leva consigo
a história do mundo
e por isso também o mistério do universo.

Em prece vi que o amor encherá
seus olhos e coração de lágrimas
e neste momento meu mundo será enchente
mas novamente o amor arrebatará seus sorrisos
e os enfeitará de dentes
e o som do tambor inundará seu corpo
de alegria e fogo
e o amor será feliz de novo
e então meu mundo será correnteza
repleta de cardumes brilhantes ao sol de fevereiro

e haverá saudade como sempre há
saudade terá cheiro de leite de peito
e suor de criança
o cheiro da febre e do quarto branco azulado
saudade terá olhos negros e grandes
justamente do tamanho do meu mundo

e pensei em prece o quanto sentirá você também o vazio
e neste momento todo meu mundo será angústia
e esperança
todo meu mundo será a espera de que volte
tendo entendido que não nos é dado
saber ao certo pra que existimos

e em prece imaginei sua voz cantando
e ela era forte como seus olhos
e pensei no que lhe dizer quando estivesse triste
e descobri que a tristeza existe
para que a coloquemos num papel
ou num pedaço de barro ou de pedra
num instrumento ou numa fotografia
ela foi feita para ser cuspida
em forma de som, de cor ou preto e branco
em forma de palavras, de cantos
ou esculpida em blocos de concreto
e assim ela não pesa tanto em nossos músculos
e nos impulsos elétricos que nos acende o cérebro.

passado isso, tentei em prece descobrir
se, como eu, em seus pais você pensaria
em como você é deles o mundo
e como todo mundo que se preze é diverso
e vive em movimento
e muda, muda
e sempre será mundo
um universo de sistemas
cheio de vida
que vira poema.

e pensei se, como meus pais,
eu conseguiria etende-lo crescer
vê-lo de outro tamanho
sobrevivendo e caminhando rumo ao seu própio mundo
e vi que o entenderia sempre
como me foi apresentado em sonho
antes mesmo de para a luz ter sido trazido
um pequeno ser humano
de olhos grandes exatamente como os do pai
e entendi como o reconheci
ao ver seu avô
ao ver seu pai
o reconheci
pois era deste modo que meu mundo seria
eram os traços do meu mundo o que eu via
os olhos do meu mundo
e por isso o reconheci naquelas fisionomias.



Leticia Frederico








 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Sim, deveria haver algo de incrível 
nas horas que passam
algo de extraordinário nesses segundos 
que fazem um barulho quase imperceptível 
no meu pulso esquerdo,
mas não há nada.

Não há nenhuma gota de surpresa que aconteça 
neste tempo marasmo 
que só anda lento demasiado ao meu lado. 

Não, não deveria haver nada de fabuloso 
ou magnífico em minha cabeça pesada
não deveria existir um universo de coisas fantásticas 
que não cabem nestes minutos inexploráveis.

A liberdade fica presa dentro do neurônio em funcionamento
e mesmo sendo um neurônio perfeito como tudo que é natural
não é todo minuto que ele funciona direito
e por isso é que a vida não é sempre fenomenal.


Leticia Frederico

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Sei do motivo
que me faz escrever.
Sei que o motivo
é um motivo
desmotivado
que me faz emotivo

Me emociono num lamento salgado
nessa rua lotada de gente,
que corre cheia de finalidades,
repleta de origens
quase sempre inconsequentes.

Me ignoro na mudez 
de dedos e sons
no quarto trancado
replicando deles
as lágrimas presas nestas ruas
onde se vê o sol rachar não só o solo
mas de todos nós as cucas
estorricar os poros
secar todas as razões que nos faz
nelas correr, 
a pressão descer
e subir pela nuca.

Me vejo naqueles pés
e daí vem toda a desmotivada razão
de escrever-lhes
entregar-lhes uns textos rabiscados
com palavras que lhes inspire
a dizer a tudo isso não
e depois um sim
e depois um talvez
e, que logo depois,
voltem a se desconhecer
continuem a se comover
e corram para entrar no mar,
mergulhar...
e suas ordens desobedecer
Enfim, que enxerguem-se
dentro dos versos destes invisíveis papéis
e deixem-se viver.


Leticia Frederico

 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Certas coisas são de doer
doer até os ossos
além dos ouvidos
doer até aqueles todos outros sentidos
Erradas coisas
coisas desavisadas
coisas não aprendidas
certas coisas desprendidas ao longo da vida.
É a vida pequena, sem erro 
a ignorância gritada,
o pensamento acorrentado,
que no cérebro enclausurado, 
se transforma na arrogância estúpida...
mas existe a culpa
de quem é a culpa?
a culpa é do culpado
mesmo que o mesmo
sempre tenha para um outro o dedo apontado
mesmo que o mesmo tenha sempre
aquela velha explicação
decorado.
Aquela velha explicação
do erro pelo outro começado.
Ah como gosto do peso em minhas costas
machucadas
ele tem cheiro da sorte
de ter o autêntico medo de nada
o cheiro das flores esmagadas
pelas unhas nas pontas da mão
que me enchem de perfume
doce e seco
substância esta que empesteou meu chão.


Leticia Frederico

 
Pensei que havia
e não via
que a via
única mão tinha
 
a mão que se moveu no ar
a mão do com o bom Deus se vá.
 
Pensastes nas pernas carnudas
pelas viajens curtas
que se colocam ao poente
de despedidas brutas
onde as mãos se descolam
dos pulsos novamente.
 
Subistes então em teu balão
de ar escaldante pela terra
e o mar que há debaixo dela
queima em tom vermelho sangue
e a veia negra esfarela
como em meu cremado
coração errante.



Leticia Frederico

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Deturparam teus ideais de igualdade
corromperam tua fraternidade
aprisionaram teus olhos para a liberdade.

É preciso praticar a filosofia
mas é todo dia
não uma vez na morte e outra na vida.
mesmo quando se tem a sorte
de ser num castelo nascida.

Meus caros amigos
confrontem seus sonhos com o mudo capitalista
nunca vi tanta gente vestindo amarelo
como na virada deste ano passado (ameaçado pela ideia anarquista)

Ha ha

só rindo
só rindo de quem acredita
acredita mais na grande mídia
onde se espalha ouro branco
e perde-se o verdadeiro tesouro
o tempo
o tempo não pode ser avançado
não será rebobinado
muito menos paralisado.
o tempo que se musica
nas paralelas
no escritório
de braços abertos
a cem por hora
o tempo do Seu Mujica
o tempo dá o exemplo
e o exemplo é o que multiplica.

deturparam os ideais de igualdade
ignorando nossas particularidades
generalizaram igualitariamente...
Acorda! Trabalha cedo como toda a gente
Mas às sete ainda estou dormindo
ao meio dia estou sonhando ainda
às dezesseis me viro pro lado
às seis da noite acordo pro mundo
sem ter minha ideia trabalhado.

fraternidade dos filhos sem irmãos do século vinte e um
a liberdade que te oferecem aos bolsos
todo dia prende mais um.


Leticia Frederico

 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Primeiro dia do ano,
quanta coisa boa
tanta felicidade
nossos pés andando
tanta direção
vamos arrumar a sala
a cozinha o banheiro
não nos esqueçamos,
é claro, do porão.
Essa casa não tem porão
que não seja eu mesmo,
então não esqueça de varrer o telhado
pois na última ventania
caíram uns galhos
umas folhas frias
sem sangue
nem espaço pra cair no chão.
E os poetas perguntam-se:
o que sou?
e os poetas escrevem
o que sois.
Como eles mentem em verdade...
como não se arrependem depois!
E as enchentes continuam derrubando casas
e aquela criança descansa
deitada em cima do lixo
sobre a calçada
enquanto fazem,
com champagne, um esguicho
de cima da sacada.
Preciso de um táxi, um metrô, um ônibus
toda gente precisa da sua casa
entram na fila,
esperam o ônibus,
rezam por sua breve chegada
Todos estão cansados.
Não é o calor
não é o asfalto sujo
nem o dedo machucado.
É a areia...
é o pedido mal elaborado que fizeram
à sereia.
A culpa é sempre do diabo.
Estão cansados
com sacos de roupas molhadas
com restos de comidas já passadas.
Não chegará o táxi
Não caberá no metrô
espere então o ônibus, mas no ponto final,
pra não ir daqui até lá esmagada.
aqui está sua bela cidade despreparada.
Na rua há sempre uma festa
e ela não acaba.
A cama de lixo amanhã será triturada
e uma criança num outro ônibus dá
um sorriso ao poeta
e o sorriso o mostra a alegria
de não se importar com nada
e o poeta só pode dar ao mundo
sua poesia.
É o que o resta.
Depois dos fogos de artifício,
depois do estouro ferindo os ouvidos,
do ano inteiro 
o que sobra é a virada numa bela fotografia.


Leticia Frederico