quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Até fazer o que mais te agrada
enjoa e esbarra na falta de sílaba,
a letra, tua fonte sagrada,
dorme nos vãos das pedras portuguesas, 
caída como frutos
do acidente em cima dos viadutos,
é caco brilhante de vidro espatifado
neste centro mendigo, 
alheio como teus passos
nobre como teus indigentes antepassados
inconfundível e sublime
como as formas de um artista
tão pouco inspirado...
não há nada que mais desanime.
Elas vêm subindo pelos bueiros mais fétidos
como ratos cheios de fome e desejo
entranham as narinas tuas
e das sombras que se moldam às ruas
desprendem os parafusos dos velhos canos ainda em uso
e inundam teus pés de medo
medo da vida, da morte e do desespero
são chamadas musas dos que têm pelo mundo fiel apego
colocam-nos a descrever a vida
a vida como em nossa cabeça habita
a vida que é feita de despedida e sorte desconhecida
Alguns tentam inventá-la de modo bonito e simples
a vida dando voltas no tempo
a vida crescendo, permanecendo altiva
a vida sobrevivendo
e quem se importa em descrever a morte
vira um ser de odor insuportável e mórbido
que mora escondido do mundo
que vive excluído de tudo
mas quem disse que a morte dói?
se  eu de olhos abertos sinto doer a facada
 se tu sentes o vazio dessa vida a que chamam de estrada?
Tentam entender as verdades
as humanidades
tentam inventar outras realidades
Eu não pretendo morrer,
 sinto que morrerei amanhã
mas não o pretendo
pretendo sentir ainda dor
sofrer de saudade
e pretendo que não tentem me inventar nenhuma outra realidade
pretendo que entendam que não há outra realidade
os meus pés são inundados todos os dias por elas
e por elas escrevo com dedos que serão um dia apenas pó
elas nos inundam e nos levantam para fora do esgoto
para que observemos quanta mentira há na terra do ouro.


Leticia Frederico
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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