segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Não ter nada a declarar
é o que mais brota
ao engolir tanta abóbora...
pequenas abóboras sendo esmagadas
na horta.
Abóbora combina com verde
o verde é da clorofila
e é também da nota do dólar
então eu entro na fila
faço o jogo
pra ver se fico rica,
vai que dessa vez cola.
Ah, mas você ainda é tão menina
mal saiu da cadeira da escola
eu só combino com rima
estouro tua pistola
isso é coisa de rua
você sabia?
mas eu não moro na rua
moro no espelho do seu gargarejo
então vê se me cospe fora.
ninguém perguntou qual é o desejo
peço que por ali vá embora
da janela vejo as mãos
querendo cortar a linha do horizonte
no céu
de vidro e de cola
enquanto o papel colorido decola
e o menino e seu sujo ouvido
um samba antigo decora
eu não nasci em nenhuma viela
mas subir o morro é como acender uma vela
e rezar uma prece pra Ela
quem corta o dedo do menino
é a linha do horizonte o papel fino ou o bandido?
eu cotinuo aqui
atrás das grades do músculo contraído
vendo duas águias voando
e uma delas vem me meter o bico
mas eu acordo
sem ver meu olho comido.

Leticia Frederico


 

domingo, 29 de dezembro de 2013

A qualquer hora
você pode virar um louco
esquecer um pouco 
esse mundo de agora
e morar num outro
rabiscar num caderno velho
letras e um verso belo
feios garranchos com sentido inverso
do que passa dentro 
do seu peito rouco
é, a vida é um sufoco
mas dentro da cabeça
ainda não é oco
e longe muito longe 
ela sente o inverno
e a neve cobre o seu cabelo louro 
e o vento corta os olhos 
transparentes como o gelo 
verde longe 
desse abraço quente
é tanta saudade
mas não mata a gente
é  tanto suor frio 
que escorre em corrente
só o sonho sabe
que não fica ausente
vejo perto um novo dia
de um novo ano
que passou num dia
longe, muito longe
ela caminha
numa rua fria
mas todo mundo sabe
o quanto ela riu enquanto ia
ri de tudo
também chora um pouco 
todo mundo sabe 
todo mundo arde
nessa terra quente
onde o sol lembra sempre 
que antes do inverno 
ela estará presente
e o peito rouco diz 
aguarde 
confia
e lembra sempre 
do que a vó dizia 
Tati
ta aí 
tá aqui
onde tá tu?




Leticia Frederico

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A cara do dia
é da noite mal dormida.
É a cara de quem
vai dividir, por partes,
em três o dia
e ficar sem nenhuma despedida.
É a cara da flor despedaçada
com jeito de andar longe da calçada
esperar pelo ônibus passando por cima
abrir a boca pra poça enlameada 
sujando os olhos de janela envelhecida.
 
É a cara daquele sorriso
sem fome nem graça
de dentes enjoados de tanta preguiça
e o sol desbotando a pele amarelada
cara de quem queria sair na rua pelada
e pular da ponte no mar pra sentir a brisa.


Leticia Frederico
 








 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Pensei sobre o que poderia ser divino
para escrever em um poema natalino...
continuei pensando muito tempo
e lembrei do que entendi
num dia como este
um dia com muito peso no estômago
algum na consciência e
um anoitecer  sonolento.
Disseram-nos que ele havia nascido
que sua virgem mãe o havia parido,
que a dor ele tinha sofrido
e que para salvar a todos 
crucificado, ele tinha partido...
Enfim o que foi mesmo
que ele havia dito
que muita gente tem esquecido?
Ele disse aquilo mesmo,
aquilo mesmo que está escrito 
talvez essa gente não tenha entendido.
É só isso: 
em nome do pai 
do filho 
do espírito 
santo,
amem.
Foi o que ele disse:
AMEM. 
(sem o acento bendito)




Leticia Frederico

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ainda sem acreditar
eu acredito na sorte.
Vejo e posso tocar
quando na sua frente
abro os olhos.
Descobri que há um jardim
e nele eu posso jogar
baldes de água
com minhas frágeis mãos,
que não aguentam
nem um gato pelo rabo.
Nele existem não só flores
mas também muitos vermes
que o enfeitam e colorem,
permitem-no existir...
me permitem destruí-lo
com minha foice
ou mesmo com fogo.
Eu só conto com a sorte
e conto a ela que
quando abrir os olhos
sei que ele ainda estará lá
e por isso 
continuarei
de olhos fechados.
 
 
 
Leticia Frederico

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Para lá
e para cá
 anda
tem tanta coisa
e ai desanda
é tanta coisa
pra se fazer
e não manda
faz e pede
para que o tempo passe mais breve.
Eu?
Eu continuo esperando pelo porto
mas a maré está tão lenta
sempre desapressada
não tem nada
é tanto vazio
que até pareço
desalmada
não faço
e também não mando em nada.
Sinto o porto chegando...
esta vindo!
Os portos andam?
Ou são os barcos que aportam no porto parado?
Eu fico tão cansada
de ser o barco
sem motor
sem nenhuma vela que valha
nesse mar sem cor
essa água navalha no mar morto
é espelho de morte, sal.
Mas reflete também amor.
 
 
 
Leticia Frederico

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Muitos dizem que ela não põe mesa,
outros que é fundamental.
Pra mim só se estiver no fundo da mente,
cheia de sinceridade
inconsciente,
ela fica descomunal.
E abre as portas
sem abrir um sorriso,

sem tirar nem pôr o vestido.
 Nua, deixa de ser só sua,
se espalha no meio da rua
e mesmo na tristeza
com toda certeza ela continua.



Leticia Frederico

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Meu filho ainda não aprendeu a amarrar o cadarço
Eu não lembro se sabia
amarrar cadarços sozinha na idade dele.
Penso se, se soubesse, isso teria importância
hoje que não tenho tempo
de ensina-lo a amarrar seu cadarço.
Meu filho ainda não sabe que amarelo é yellow.
Isso, deveras, na idade dele eu também não sabia.
E penso hoje se, se soubesse, alguma coisa mudaria
agora que não tenho tempo de pergunta-lo se yellow
é a cor do sol de dia.
Ele não sabe escrever sozinho meu nome ainda
Tento lembrar se na idade dele
o nome de minha mãe eu sabia
e vejo que não me lembro.
E penso em morar no campo,
aprender a tirar da vaca um leite forte,
aprender a contar mais com a sorte
de uma colheita,
aprender a dizer que não quero morar mais
na cidade onde o pavão se enfeita.
Aprender a desamarrar o cadarço
e dormir na grama.
Esquecer à bordo meus pertences, 
que a mim nunca pertenceram
e pintar num pano junto ao meu pequeno menino,
filho do mundo sem ninho,
uma lagoa com patos de bico amarelo e
pena branca.
Mas um bêbado esbarra em minhas mãos
e as teclas somem neste novo papel
que não é feito de planta.
 
 
Leticia Frederico

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Boa tarde escravo da nova Era
tens um belo carro
e apartamento...casa de praia e campo
com um verde muro de hera
Era bem provável que sua vida
fosse incontestável
até lhe aparecer bem longe
uma visão dessas que não se espera
de que és o escravo dessa nova Era
não era,
é
é e vai continuar sendo
seus filhos estão crescendo
eles estão te desobedecendo
estão decendo
e vão subir no seu carro no meio da rua
implorando que peças perdão
por esta e pela próxima Era
em que seus bisnetos não existirão.

Tome sua vacina da solidão
não esqueça
é preciso estar com a luz sempre acesa
e tome cuidado com a assombração.


 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013



Escrever poema é mole
tão mole que não se firma
e o poema deforma
tão mole que despenca
e pelo dedo ele escorre.
Dizer poema é fácil,
tão fácil que não o digo
e o poema me isola
tão fácil que o cuspo
e quem o ouve engole 
Pensei em escrever
sobre o que achei ontem
na sua caixa
mas não dá não,
porque eu só escrevo poema
e escrever poema
pra mim já está bom.
Mas quero ler suas caixas,
nelas também há vida
leio as de entrada
e também as de saída.
e mais que isso,
leio as de rascunhos,
pois são minhas preferidas.
Podemos fazer uma gande pilha
e lá de cima
tiro aquela folha comprida
e declamo meu simples poema bem alto
sem ficar constrangida.

Leticia Frederico




 
O tempo me abraça
 e torna a empurrar.
Paro para adimira-lo,
mas permanece vulgar.
Parado na esquina,
ele acende um cigarro
 e torce para parar de ventar.
 Espalha latas, folhas e terra na calçada
e eu corro para catar.
Entorno os meus pedaços
 estilhaçados no meio fio
acreditando que o tempo
 pode os aglomerar.
No centro do asfalto
 a linha amarela acaba
no farol vermelho
 e o verde não mais piscará...
 o tempo já pode acabar.
Atravesso e vejo no alto daquele morro
que o pedido de socorro
 poucos conseguem escutar.
 
Leticia Frederico

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


Quem tem voz
Para abrir a porta
Em silêncio
Sabe sim
Sabe do tempo
Sabe da morte
Deixa que a leve no vento
Inventa
E tudo que posso falar
Canta
E me deixo ouvir
Ouvir o silêncio abrir a porta
Ouço  que o mundo é velho
E não há nada de novo
E há tudo que havia
A velha
A vida
O mendigo na calçada
Cai frente aos meus olhos
E inventa uma nova melodia
E com sua letra apagada
Coloca a farofa a flor o maço e a garrafa
Na encruzilhada
E desce a ladeira
E deixa a mandinga
Com seu passo arrastado
O vento varrendo
A esquina
E a morte vindo de dentro
Pra cima 
Se esconde nos braços daquela 
branca menina.
E as palavras saem correndo atrás deles
E puxam seus cabelos
E os tambores batendo dentro deles
Arrancam seu coração 
E seus punhos doloridos 
E os dedos enfaixados sangram
Sujam o terreiro vazio da vida
Vidas que rimam com rua
Desordem
Saudade 
Conversa
Sem sorte
Sarjeta
Adeus 
Essa vida que rima 
com vadia 
Rima com cicatriz e corte.

Leticia

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ela foi chamada de ladra
foi odiada
como uma bruxa
teria sido queimada
ah, também quase foi apedrejada

Ela sorriu simples
e disse amém
dispensou umbigo,
mãos,
pés
Dispensou igreja,
padre,
e também anéis.

Ela subtraiu um filho
e desejou mais cem
deu comida
amor
e recebeu
com mais do que amor
não só o amor
mas também o desdém

Ela ignorou a ignorância
desceu de chinelo
e foi à praia
ela nadou
esqueceu dos males
sorriu, caminhou
e sabe mais que ninguém
sobre isso que na vida,
a pena e a galinha, vale

Ela inspira
e ainda bem que respira
ela doa
mais do que dói
ela espalha
mais do que rói
e por fim
ela roubou o coração
de todos nós.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Eu quero ter isso
e isso não é interessante
isso não é bom para ninguém.

Peço um favor
e não peço
quero ser isso
e nada há de mais interessante
para mim

isso que falo é o que
também não entendo
é o que quero e não entendo
é o que tem de nada interessante ser

os meus pés dormiram agora
foi difícil acordá-los
eu quero isso
eles dormem e são acordados

só preciso deles porque é preciso caminhar
e eles estão tão feios
com unhas enormes
mas continuam dormindo.

preciso caminhar com eles
e então escrever
mas não há interesse
não há
e também não há dinheiro,
então trabalho
trabalho
tanto quanto é trabalhoso
esquecer e escrever e
não trabalhar.

Não há trabalho algum nisso
e é tão fácil esquecer o trabalho
mas não é fácil acordar às seis
e fingir que esqueci do trabalho

Eu rio disso porque não tem a menor graça
e acordo às sete e não às seis
mas às outras seis vou indo
e voltando coloco meus pés para dormir novamente.

e todos estão em pé ou sentados
colocando-se para dormir
e esquecendo do que querem
porque ninguém quer o que tem,
ninguém.
Porque ninguém tem nada hoje,
nem teve em outros tempos
então, por favor
que eu não tenha também
mas, que eu não deixe de querer.

Leticia Frederico
 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O mar e o sol
e o cabelo
e ouço de novo
e de novo me perco
o sol e o giro
e o batom
e escuto de novo
e de novo me viro
me viro como quem se vira
na vida
na realidade
e o cheiro e a rua
e o lençol
e canto de novo
e de novo sou sua
e a saudade é nua
e a selva em cimento
atirou pedras matadoras
em nossas cabeças de vento
e o mar e o sol e o girasol
fritaram no asfalto quente
num contratempo.
Leticia Frederico

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Eu não te escrevo.
Não quero escrever-te
Não posso.
estou sentada e não sei de que corpo eu preciso
preciso do teu
preciso dos teus olhos
isso é tão óbvio
não preciso de nada.
preciso do meu corpo 
largado sobre uma calçada
quero ser carregada
pelo meio da avenida
sem abrir os olhos
sem abrir as pernas
sem mover um músculo.
Vou ser carregada
sem movimentar os lábios
para o sarcófago 
mumificada
eu quero uma bela manhã
em que eu acorde sem sono 
e corra para ver o mar
e corra sem tempo nem vontade de descansar
eu quero cair e deixar
que ninguém me veja nem me toque
sentir é importante?
há quem se importe.

Leticia Frederico

Pelas nuvens

Ouvindo música para acampamentos,
entre outras músicas para outras coisas.
há música para tudo neste país.
Quase acreditei.
Mas vou guardar o meu tesouro.

É a verdade e o descaso?
os sentidos
o corpo
a alma?
E a espada? e o metal? e o raio, cairá em minha cabeça?
o trovão já se faz presente
eu me entrego
e me rendo
o inimigo sobe em meus ombros
e vamos brincar de briga de galos.

Pois nada passa nem passará.

Tudo está não no sopro
mas no sugar
e o dragão veio me buscar.

mas eu não vou.

ninguém conta as coisas bonitas.
ninguém vive
ninguém faz
eu olho pra trás
e agora nada começa
o mundo termina
e não recomeça
a cada dia.


Leticia Frederico

 
A jóia não tem valor meu bem,
não tem.
Ela brilha, cintila em seus olhos
mas não expõe seu preço,
deixa-se
aberta em nossas mãos.

É tanta falta,
falácia do dia,
falasse mais do valor dos seus brilhantes
olhos cintilantes nos meus sonhos minha querida.
Não é possível ser tudo sozinho,
não é.

Manda embora esse passarinho
que cisca no teu peito
deixe voar a falta de coragem
é preciso doar passagem
o anel mais lindo não cabe no dedo do passarinho
cheio de garra que agarrou a veia e a gordura saturada...
ainda estão brilhando seus olhos
óleos enchendo de fumaça
teu céu anil e salteado de dor
e de voz sem cor.

Estou triste de novo
a cabeça despedaçou
mais uma noite a cabeça desperdiçou
decepou
decepcionou
destruiu
desesperou.
Eu quero um gole de tinta
Eu quero um gole antes que eu minta
e cuspir a cor dentro do ouvido.
E cuspir a dor bem vinda.


Leticia Frederico





 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Temos aqui quatro xícaras para o café de amanhã
todas elas aguardam o café de amanhã
e temos também o barulho da noite que espera o amanhã
o barulho da noite que não para, o barulho da água.

O dia termina
da melhor forma que poderia
na forma U
e nós no frio da tela
esquecendo das facas afiadas que voam
e das enchentes que nos afogaram

Mas ainda assim gostarias de desenhar uma concha
neste início de madrugada
e eu lembro da concha pescada
e ela tinha o barulho do sonho
e o barulho da noite me volta
e não para.

e me dizes que não entende do U nem do O
não entende do O U
do ou ou do o u?
ou uma coisa ou outra.

bendita geometria
das letras,
matemática
que rege
seu dedinho do pé
até
a música que acaba de nascer.

é assim e de outros jeitos
que dói a cabeça
e o frio da tela congela
no colo
acima de ti
congela nos olhos fechados

e no barulho da música
que nasce na minha mente
e cresce comendo arroz com feijão.

é preciso arroz feijão e um pouco de farofa
pra entalar.
e quem sabe, crescer...