Umas notas a mais
e eu compraria minha vida.
Preciso de um carro
Ah, eu preciso de um lar...
Preciso de larará
Preciso de um dia precioso
Quero ver uma horta onde brota aipim
Passeio é o luxo da grande cidade
Luxo, luxo, caminha na areia
Luxo, ver um monte de ovelhas
Luxo, ver uns jardins floridos sem sentir o cheiro nem tocar
nas rosas
Trazer umas fotos
Guarda-las aonde?
Precioso luxo do mundo que ninguém tem
Do luxo que ninguém quer
Queria apagar a luz e esfregar os pés nas calçadas
Até criar pus
Na calçada que ninguém vê
onde os sonos passam cansados
Esperando seu luxo do final de semana.
Vou me mudar pro lixão
E espalhar minha ferida na cara do lixo dos bonitos e
quadrados apartamentos do Leblon
Quero procurar pra ver se acho o tempero da comida saborosa
do lixo da infraestrutura da Barra
Quero engolir as seringas que não foram incineradas do
hospital onde nasceu a filha daquela grávida que estava passeando enquanto furavam
o chão, para que toda gente pobre fosse domingo à praia.
Vou secar o luxo estragado dos esfomeados coloca-los todos
no bolso e apertá-los nas mãos.
Não ficarão saciados.
Vão subir pelas minhas pernas
E lamber minhas coxas pra beber a doença
Das notas que joguei no esgoto antes de mergulhar.
Não vou pedir licença e chutar a cara daquela criança
Feia e magra até que ela arranhe e sugue meus seios
Em busca do ventre quente e escuro de onde foi sugada
Ela vai ter que aprender a nadar
E então vou afoga-la na mesma água transparente
Das notas de ouro do luxo
Daquele Cruzeiro
No sul
Não a deixarei levantar a cabeça
Até que sua imagem desapareça.
Leticia Frederico