quarta-feira, 30 de outubro de 2013


Desculpe-me tentar entender

Desculpe-me se pareço doentia

Talvez eu esteja doente

mas é preciso pedir desculpas também por isso.

Talvez não seja preciso pra quem as aceita

Mas para quem pede,

a desculpa é precisa,

principalmente quando não é vista...

Se fosse um carinho,

uma descontração sincera...

mas a indiferença à desculpa

deixou-me presa e estéril.

 

Talvez seja só egoísmo,

também o pedido de desculpa.

Então não desculpe coisa nenhuma

E deseje que eu me jogue no abismo.

 

Mas eu não vou me jogar,

eu já me joguei.

Eu caí e não sei levantar

 

“Então cave mais, cave mais

Chegue de vez ao inferno.”
 
 
 
Leticia Frederico

terça-feira, 29 de outubro de 2013


Levem-me daqui, levem-me

Aqui está tão triste e sem sentido

Coloquem-me pra fora daqui

Expulsem minha mente daqui

Ela não consegue passar por baixo da porta

Ela não chega sozinha do lado de fora

Arranquem minhas raízes daqui

Eu quero ver o outro lado das coisas

Se é que as coisas têm lado

Quero bater de porta em porta

Do pão alguém me dará um pedaço...

Tirem minhas ideias impossíveis daqui

Porque o preço aumenta se o negócio é o mesmo?

Não quero saber disso economicamente

Eu quero de volta a minha mente

As vontades que nasceram comigo

E não existiam na minha cabeça

Antes que a minha racionalidade

Me enriqueça

quero os pensamentos esquecidos quando a luz tornou-se acesa

quero o escuro do quarto quando eu mentia que só vivia naquele dia embaixo da mesa.



Leticia Frederico

segunda-feira, 28 de outubro de 2013


Que coisa.

Que não pousa nem tão pouco voa

Vêm uns ciscos que entram nos meus olhos

Mas quando de novo olho, já sumiram à toa.

 

Que coisa, não?

Que se refaz e se remenda outra hora

Daqui a pouco a linha fica frouxa

E quando vejo, caiu um botão.

 

Não é mesmo muito muito estranho?

É só dar um ponto que arrebenta o outro

Fura o dedo, perde-se a agulha

Acha o pano solto lá naquele canto.

 

Quero dar-te de presente uma saco cheio de retalhos

Alinhavados com ponto apertado

Ou uma bela colcha de fuxico

Que vi na loja e não levei comigo.

 

Também havia muita renda boa

Mas os meus dedos não sabem rendar

Então escrevo tortas linhas bobas

Pra ver o seu sorriso enfim voltar.
 
 
 
 
 
Leticia Frederico

Esta noite morei numa árvore.
Lá dentro havia um aconchegante ninho.
Mas para entrar subimos pela escada,
e não voando igual um passarinho.
 
A escada estava mesmo muito baixa
Nos penduramos com unhas de preguiça
Agarrando-nos bem forte aos galhos
com paciência, enfim nós conseguimos.
 
Assim falando você não vê graça
Pois sonho alheio não abre caminho
não tem sentido, não explica nada
e é por isso que sonho sozinho.


Leticia Frederico
 

domingo, 27 de outubro de 2013

Você pode escolher.
Não, não vi.
Tem dois.
Você quem sabe, escolhe aí
Eu poderia dormir agora mesmo
Tem uma hora e vinte minutos
Essas coisas tinham de ser padronizadas.
Sim, mas não há padrão.
Ih é.
Nem adianta.
Eu pensei, mas não tem.
Então ficamos sem.
Já venho. Vou ali jogar isso fora.
Já dormente.
Demora.
Está alto.
Fecha a janela.
Aham.
Você fechou a porta?
Pega água aí pra mim...
Diminui
Mas é a música.
Ah então ta.
Que horas são?
Seis horas é o remédio
Acho que vou ficar enjoada de novo
Ah a gente come alguma coisa antes
Apaga aí
Fica essa lua em cima da cabeça dele
De manha não dá pra comer
Assim você vai desmaiar
Eu acho válido
Te amo.
Misturada.
Que susto
Gelada ou quente?
MISTURADA.
O pano caiu, pensei que fosse uma gambá.
Ai meu Deus.
É pra deixar ali
Obrigada.
De nada.
Te amo.
Te amo.
Vamos.
 
Amanha é dia 28.
 
 

Leticia

sábado, 26 de outubro de 2013

A CELA



No tempo da inocência.
Acreditaram no amor.
Fizeram do amor seu sonho de criança.
Aprenderam a ler e a escrever.
Mas cresceram e tornaram-se homens e mulheres
transformaram o amor em seus sonhos de esperança.
Viram e ouviram a morte.
Colocaram uma bonita fantasia
E descobriram que gostavam de ouvir samba
Antes de perceber que o carnaval não os agradava.

Então foram para a rua
E jogaram confetes e sentiram o cheiro do perfume
E queriam viver em festa
Mas viram que havia o ciúme
Então voltaram para casa.

Queriam escrever livros.
E dizer ao mundo tudo que pensavam sobre a vida
Mas não era isso que faziam
Pois não tinham tempo nem dinheiro
Gostavam da beleza, mas o feio invadia-os
Saboreavam-no, esqueciam da vida.

Longe da inocência
Desacreditavam do amor
Fazendo contas ou não
Inventavam outro meio
Falavam-se por carta.

De homens e mulheres,
viraram  a cela de quatro paredes
ora questionam
ora deixam de questionar a única questão filosófica verdadeira
Pois quando se entendem
Percebem que toda cela tem uma porta
Mesmo que seja estreita.

Mas ainda assim há o ciúme
E continuam voltando pra casa,

escrevendo sua festa,
inventando seu fevereiro.


Leticia Frederico

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

indigestão

Vou contar-lhe um segredo
Pois esqueci que um segredo não deve ser contado
Ontem eu tive medo
Ontem meu coração estava descompassado
Acho que morrerei por isso
Mas isso não tem nada a ver com amor
E sim com músculo mal impulsionado

Deve haver um sopro
Por isso às vezes bate tão apressado
Por isso para e depois recomeça
agora peço que deixe-o sossegado

Aos que pretendem se sentir o centro do mundo
Vamos questioná-los:
Onde estão seus umbigos?
Esqueceram de jogá-los no telhado?

Pode parar de bater Coração...

Quando meu coração parar de bater
Peguem o resto dos órgãos
E joguem aos urubus
Assim me perguntarão onde está meu umbigo.
E então contarei outro segredo que de que não podia contar esqueci

- Aos urubus hoje sou indigesta, pois engoli meu umbigo no dia em que nasci! 
Naquela hora
meus dedos estavam paralisados
eu olhava para eles e achava que os movimentava
Mas nem tremer eles tremiam.
Na minha frente parecia não haver nenhuma face
E sim aqueles dois enormes olhos
Só dava pra ver aqueles enormes olhos
E eles não saíam de cima de mim
Como se eu tivesse de pagar o que devia
Eles me encaravam
Cobrando algo que nada valia.
Se eu tivesse um perfume barato
Teria neles borrifado
Mas os meus dedos não me deixariam
Ou seriam aqueles dois grandes olhos?
Não tenho nenhuma moeda na bolsa
Nenhum papel
Nem mesmo uma carta de amor
Para ler diante daqueles dois olhos sem cor
Não tenho nenhuma caneta esferográfica preta
Para escreve-los com a minha feia letra
numa bela declaração
De direitos e esquerdas
Não posso explica-los aos meus amigos mais caros
Pois os olhos rolaram ladeira abaixo
E agora só vejo o corpo mal tratado,
de longe, decepcionado, fugindo
Quem os proscreveu?

Não fomos nós?
foi você ou fui eu?



Leticia Frederico

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sem fim


Quem tem meios de escrever fins ou começos?
Os que têm imaginação.
Eu apostaria na desgraça até o fim
Desgraçar tua vida para recomeça-la.
É o que todos fazem, todos os dias.
Alguns tentam maquiar suas desgraças
Dividindo-as com o outro
Lançado sobre ele a culpa pela crueldade
do mundo adverso .
Pudera eu calçar um salto fino
E enterra-lo sozinha no meio da garganta da dor
Para que ela calasse o fingimento de si própria.
Levantar os olhos e olhar seu reflexo incomoda
De cada poro sai um animal que te come por dentro.
Então vou deixar que o animal trilhe mapas sob meu tecido branco
Deixo-os mancha-lo de vermelho.
Não há meios para escrever o fim nem o começo
Livro-me aqui deste peso.
Aposto na desgraça do mundo adverso
E deixaria registrado em prosa, mas prefiro o verso.
 
 
Leticia Frederico
A verdade vem faltando aos meus ouvidos
mas já tem tanto tempo que não lembro
Eu sei toda verdade do teu intrépido sorriso
como a dos meus olhos,
miseráveis sussurrantes
encerrados no departamento.

A vida vem sobrando à miha volta,
mas é tão invisível que há muito nao compreendo
tento traça-la, mas ela escapole
entre as paredes quentes do apartamento

Vejo a miragem de mim mesma quado acordo
estou sentada e não movo um músculo
no chão gelado espero alguma onda no mar turvo
despertar meus braços contra o afogamento.

Será mais fácil apenas boiar 
e ver o céu, mesmo que seja noite
ter toda a claridade dos teus beijos mordidos.
Confesso que escrevo por não ter um sonho.


Leticia Frederico





 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

hoje

Tenho tido saudade
Saudade do vento e do frio
Tenho tido, desde o dia que fez calor
desde o dia que o vento parou.
Sendo hoje outro dia, tenho entristecido
sufocaram sem pedras de gelo
meus dedos
Tenho derretido
Tenho virado vapor
Tenho procurado
encontrado um rosto suado
Tenho tido saudade
Do tempo e do barulho
Desde o dia que o relógio parou
às 19:10.
Tenho tido vontade.
Tenho dito verdade
Tenho escrito poema
tenho sonhado
tenho tido o que tenho inventado.
Tenho sentido saudade

no entanto.


Leticia Frederico

sexta-feira, 18 de outubro de 2013


Se ela soubesse como sei que erro
quando não dou-lhe todo dia um verso
Ah, ela me perdoaria.
Acho que o nome dela daria música
Um belo sopro de saxofone
espalharia toda sua graça

Ao cair da noite
Um belo fim de dia.

Ah, se ela soubesse como eu receio
Por não cobri-la todas as manhãs de beijo
Mais uma vez e sempre me desculparia
Acho que os olhos dela dariam um belo quadro

Mas não de um simples e fiel retrato

E sim de um mar cheio de fantasia

Se ela soubesse como me arrependo
Por não trata-la sempre com poesia
Só mais esta vez ela relevaria
Meus gritos e respostas mau tratadas
que ofereço, quando na minha mental displicência esqueço,

Que seu nome deve ser sempre cantado
Depois do Ana assovio Maria.



 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Comentário

Amo-te não pelo que sou nem pelo que és...
não sei se é assim que se ama...
não sei...
os mortos perderam seu sangue...
os mortos não fedem nem cheiram...
os mortos são pó...
não tem maldade...
os mortos estão mortos de medo...
medo de suas mortes vazias...
cheias de pó...
mas os mortos viram flor.
Amo-te como uma flor num vazo ou na terra macia.
 
 
 
 
Leticia Frederico

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

ouro.


Umas notas a mais

e eu compraria minha vida.

Preciso de um carro

Ah, eu preciso de um lar...

Preciso de larará

 

Preciso de um dia precioso

Quero ver uma horta onde brota aipim

Passeio é o luxo da grande cidade

Luxo, luxo, caminha na areia

Luxo, ver um monte de ovelhas

Luxo, ver uns jardins floridos sem sentir o cheiro nem tocar nas rosas

Trazer umas fotos

Guarda-las aonde?

 

Precioso luxo do mundo que ninguém tem

Do luxo que ninguém quer

Queria apagar a luz e esfregar os pés nas calçadas

Até criar pus

Na calçada que ninguém vê

onde os sonos passam cansados

Esperando seu luxo do final de semana.

 

Vou me mudar pro lixão

E espalhar minha ferida na cara do lixo dos bonitos e quadrados apartamentos do Leblon

Quero procurar pra ver se acho o tempero da comida saborosa do lixo da infraestrutura da Barra

Quero engolir as seringas que não foram incineradas do hospital onde nasceu a filha daquela grávida que estava passeando enquanto furavam o chão, para que toda gente pobre fosse domingo à praia.

Vou secar o luxo estragado dos esfomeados coloca-los todos no bolso e apertá-los nas mãos.

Não ficarão saciados.

Vão subir pelas minhas pernas

E lamber minhas coxas pra beber a doença

Das notas que joguei no esgoto antes de mergulhar.

 

Não vou pedir licença e chutar a cara daquela criança

Feia e magra até que ela arranhe e sugue meus seios

Em busca do ventre quente e escuro de onde foi sugada

 

Ela vai ter que aprender a nadar

E então vou afoga-la na mesma água transparente

Das notas de ouro do luxo

Daquele Cruzeiro

No sul

Não a deixarei levantar a cabeça

Até que sua imagem desapareça.
 
 
Leticia Frederico

sábado, 12 de outubro de 2013

Uma noite uma pulga incomodou-me
Era impossível encontra-la
Na cama com os lençóis bagunçados
Mordeu-me             
Mas eu apenas sonhava

Ela me implorava
Que eu a matasse
Aqueles que imploram pela morte
Buscam o vazio
Ou pedem socorro?
Levantei os lençóis
Procurei
E aliviei sua angústia
Com a unha do dedão
E descobri que era um carrapato

No outro dia
Pude saber que seu dedo sangrara
E sangrou também meu peito.
Quem tem nesta vida
Esse triste direito

De sumir enquanto o outro dorme?



Leticia Frederico

Não vou

Não tenho força pra nada
Não vou arrumar as coisas
Tudo está espalhado
Não vou lavar aquelas roupas
Não vou limpar os farelos que caíram
Vou espera-lo chegar
Nem que seja de madrugada

Não tenho força pra subir aquela escada
Não vou varrer o banheiro
Nem ligar o chuveiro
Não sei onde está a escova para pentear o cabelo.

Não tem comida
Ainda bem que não estou com fome
Pedi o remédio e até agora nada.
Não tenho força para cortar um pão
Nem mesmo com a mão
Só consigo comer este pedaço de abacaxi

E ficar com a boca toda cortada.


Leticia Frederico
Que tua mente esperta
não gaste filosofia para entrar
nos ramos secos e frágeis da política.

Que tua palavra doce e firme
não entoe em microfones
o distorcido discurso da política
às multidões.

Há tantas mentes secas e frágeis ao seu redor
elas precisam mais
do que seu próprio sonho de mudar a política

desafogue aquilo que te faz suspirar por ter razão...
quer a palavra final?
pois lembre que o significado não tem fim
quer destruir o mal?
destrua então o que te faz querer isso

Ah, quantas mentes espertas destorcerão ainda a filosofia
dos que não possuem poder nenhum?
Quando descobrirão
o segredo do mundo de que
não existe poder algum?


Leticia Frederico


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Moura

Quem sabe sobre o nome dela?
Sobre nomes não lembrei...
Não sei quem tomou aquele veneno
não sei se jogou-se pela janela.

Despertou do sonho acordado,
viu que não se desdobraria,
escreveu o que no peito doía.
Percebeu que ninguém é perdoado.

Eu pergunto se voa
ou se apenas na terra foi enterrada
sei que partiu contra o veneno dos homens
fugiu dos empurrões dos homens pelas janelas quebradas
deixou o que não me lembro
sopra o que não entendo
sei do sobrenome e mais nada.


Leticia Frederico

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Contas

Sempre pensei se era possível não pensar em nada
anteontem descobri que há uma forma
E ela funciona
Se você não quiser pensar em nada,
Levando em consideração que o que você não quer pensar seria
O que te desagrada
Simplesmente comece a fazer contas
Contas na sua cabeça.
16 vezes 74
1253 mais 962
E por ai vai...
Enquanto você tenta fazer as contas você não pensa nas coisas que você não quer pensar
No caso, não é um nada.
Até por que não há um nada
Em que se pensar
Mas, no meu caso pelo menos,
É um nada por não ter como pensar em nada além dos números
E acaba tornando-se um vazio de pensamentos abstratos
Pois no fundo aqueles números não existem  
Como a maioria dos pensamentos que nos consomem e incomodam
que são fruto  da nossa própria imaginação muitas vezes
ou que apenas não importam
mas que não conseguimos não pensar.
Mas os números são exatos.
Os números não causam dor.
por isso funciona.
Pois quando você acaba as contas você percebe que esqueceu das outras coisas
E fica feliz se acertou a conta
ou fica tentando acertar, se errou
Bem, acho que pode economizar em terapia ou calmantes...
Eu deveria ganhar um prêmio por essa descoberta.
Mas ela não vale nada.
Então boas contas.


Leticia Frederico