segunda-feira, 14 de outubro de 2013

ouro.


Umas notas a mais

e eu compraria minha vida.

Preciso de um carro

Ah, eu preciso de um lar...

Preciso de larará

 

Preciso de um dia precioso

Quero ver uma horta onde brota aipim

Passeio é o luxo da grande cidade

Luxo, luxo, caminha na areia

Luxo, ver um monte de ovelhas

Luxo, ver uns jardins floridos sem sentir o cheiro nem tocar nas rosas

Trazer umas fotos

Guarda-las aonde?

 

Precioso luxo do mundo que ninguém tem

Do luxo que ninguém quer

Queria apagar a luz e esfregar os pés nas calçadas

Até criar pus

Na calçada que ninguém vê

onde os sonos passam cansados

Esperando seu luxo do final de semana.

 

Vou me mudar pro lixão

E espalhar minha ferida na cara do lixo dos bonitos e quadrados apartamentos do Leblon

Quero procurar pra ver se acho o tempero da comida saborosa do lixo da infraestrutura da Barra

Quero engolir as seringas que não foram incineradas do hospital onde nasceu a filha daquela grávida que estava passeando enquanto furavam o chão, para que toda gente pobre fosse domingo à praia.

Vou secar o luxo estragado dos esfomeados coloca-los todos no bolso e apertá-los nas mãos.

Não ficarão saciados.

Vão subir pelas minhas pernas

E lamber minhas coxas pra beber a doença

Das notas que joguei no esgoto antes de mergulhar.

 

Não vou pedir licença e chutar a cara daquela criança

Feia e magra até que ela arranhe e sugue meus seios

Em busca do ventre quente e escuro de onde foi sugada

 

Ela vai ter que aprender a nadar

E então vou afoga-la na mesma água transparente

Das notas de ouro do luxo

Daquele Cruzeiro

No sul

Não a deixarei levantar a cabeça

Até que sua imagem desapareça.
 
 
Leticia Frederico

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