sábado, 28 de setembro de 2013

Em nome da propriedade privada


Aprendemos um mandamento
compartilhamos virtudes
na imensa rede viciosa
Incansável cardume
do oceano virtual

Do amigo imaginário
descobrimos o segredo
distribuímos gentileza
com cores e bolhas secas,
solitários no aquário social

Damos a outra face
curtindo o desespero
aceitando o ser desprezado
esperando pelo convite
permanecemos calados

Somos os soldados valentes
invisíveis combatentes 
da Terceira Guerra Mundial.





Leticia Frederico

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Degenerador




Não entendo de demônios 
mas sei que eles entram aonde quiserem
e sei também que eles não existem
assim como não existem realidades separadas de assuntos.

Esperar por algo útil do outro
é como descobrir a própria inutilidade
incessantes perseguimos...
nós sobreviveremos.

Quem tem olhos sempre vê?
Pois eu vi um filme rebobinado
eu vi um rosto desesperado 
eu vi uma piscina transparente
eu vi cadáveres em volta dela
Eu não vi nada sobre mim.
Eu acho que em agosto 
o pôr do sol em Roma é mais bonito
e também em agosto meus ombros
podem estar dilacerados
pela doença.



E sinto que não existem versos que despertem crenças
E digo que somos todos verdadeiros canalhas!







Leticia Frederico
















quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Que que é?

Quem foi?

Quem era mesmo que gostava de poesia?

Quem foi que passou a enxergar a vida descolorida?

Quem se arrependeu de ter fugido?


Muito bem, eu não fujo.

Não tenho esse costume, nunca tive.

Vou, volto e digo adeus quando preciso.

Mas de verdade e com vontade

não me importam os choros e os pedidos

não empurro culpas pra outros ombros

cada um que carregue as suas

como eu carrego as minhas

que se danem os remorsos

deixo que agonizem

até que não aguentem mais

e transformem-se em um mosquito

morto ensanguentando o travesseiro.


Sim, esqueço.

Esqueço de tudo.

Esqueço até que me bateram

me xingaram

me ameaçaram de morte...

sim, esqueço de tudo

quero que se explodam todos esses discursos rasos.


Então resolva,

resolva logo.

eu não vou chorar...não espere isso de mim.

Nem hoje nem outro dia.

A história é sempre a mesma

mas não, ela não se repete.

Os dias são sempre os mesmos

mas eu mudo o tempo todo.

Agora mesmo, já esqueci.






Leticia Frederico


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Ando ali fora correndo por dentro

a pressa afoga temores que trago

no escuro, no claro, na lama

debaixo da cama

Sem pressa devolvo-me os dias, escrevo

igualo-me ao homem, à grama, ao corvo

desencontro meu mundo

procuro num outro

estorvo estorvo

me enterro

liberto

tudo tão mudo

disperso

passa outro dia.

nunca me movo.





 

 



Leticia Braga





 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

No início da primavera.

Como um lugar pode parecer menor quando está vazio...?
E parecer mais apertado quando está cheio de pessoas,
embora pareça maior nessa ocasião?
É o que senti hoje naquele estádio onde fui disponibilizar minhas digitais 
ao voto futuro.
Disponibilizo minhas digitais mais uma vez ao Estado
em um estádio onde deixei minhas digitais e minha alma certa vez.
Um espaço que parecia tão grande há dez anos e ao mesmo tempo sem espaço,
hoje torna-se pequeno e espaçoso....
O Estado não reconhece minha profissão
desconhece minha condição
mal sabe sobre minhas dores 
não sabe sobre o amor e sobre as rimas feitas de flores.
Sim, são rimas antigas estas.
Mas não, o Estado ainda não sabe sobre elas
ele não entende de espaços apertados
nem de lugares pequenos
ele rejeita minhas rimas
mas apodera-se de minhas digitais 
ele nem suspeita dos meus versos
mas recebe de peito aberto nosso voto secreto
e o sabor de seus frutos tão desiguais.






Leticia Frederico

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

I, II

I

Te amo, esquisito.



Você que é um enxame aos meus olhos indecisos.

Te acordo só com grito ou com um poema envelhecido.

Te grito pelo nome pois na garganta é meu pedido.

Escondo minhas letras dos teus beijos esquecidos.

Me prendo nestas linhas e delas não mais me livro.


II


Solta essa fumaça.



Ela esta retida

mas não é nos seus pulmões.

Chamam-na desgraça que incomoda multidões.

Limpa esta vidraça encharcada, amarelada.

Este alcatrão.

Cospe essa doença que te rouba o coração,

que atrapalha gerações,

que te suga aos milhões,

que te implora pelo não.



Leticia Frederico





terça-feira, 17 de setembro de 2013

Eu publicava

Desequilibro tudo o que possuo no peito

a dor, o sopro, o riso, o despeito.

Deixo o sangue nele amargando

enquanto vou me equilibrando.

Comprometo-me com a distância da verdade

pelo equilíbrio da maldade,

da solenidade da sociedade.

Desvirtuo-me da boa índole

não escrevo o que tenho lido

não sublinho o que entendi do livro

desrespeito o caráter limpo

Não grito o nome de quem está fingindo,

não desconfio dos que estão proibindo,

nem denuncio quem meus direitos está infringindo.

Ah, se essas minhas rimas não estivessem erradas,

se meus versos não estivessem desordenados,

se minhas idéias não estivessem um tanto trocadas:

Essa eu publicava...

 

Leticia Frederico












segunda-feira, 16 de setembro de 2013

fé.


Eu sirvo à Deus quando me sirvo da ignorância para o espaço dar-te.



Eu sirvo à Deus quando abro mão de minhas certezas para deixar-te à vontade.

Eu sirvo a Deus quando esqueço meus desperdícios em prol da tua vaidade.

Eu sirvo à Deus quando prefiro estar por perto à servir a Deus no deserto.

Eu sirvo à Deus quando sirvo uma xícara de café a quem deveria sentir sono.

Eu sirvo a Deus quando mostro-lhe que não importam teus erros, já que deles consciência não tinha.

Eu sirvo a Deus quando sirvo meu corpo por vontade tua ou só minha.

Eu sirvo à Deus quando não entendo o mundo e dele em teus braços me escondo.

Eu sirvo à Deus quando escrevo estas linhas.

Eu sirvo a Deus ou apenas não presto.







Leticia Frederico

sábado, 14 de setembro de 2013

de modo algum





Não rasgarei mais minhas folhas,

não pensarei mais nisso por vocês.

Vocês que roubaram-nas um dia

por favor calem-se longe de mim.

Não usarei fogo para queimá-las,

não há mais medo que me faça apagá-las.

É possível que eu não as escreva,

isso sim é bem provável.

Já se foi o tempo que as escreveria.

O que viraram eu não sei dizer.

Podem ter virado ar,

podem ter virado ácaro

é quase certo que as tenha respirado e

viraram gás carbônico então.

Já nem sei mais do que eram feitas

não sei dos olhos

nem da boca larga

já nem sei

se eram folhas

onde será mesmo que eu morava?

Leticia Frederico



quinta-feira, 12 de setembro de 2013




O que você me trouxe?

Não trouxe coisa alguma.


Pra que o x?

Se ele não existe,

se não é pronunciado

como deveria?

Este outro também.

Também não existe

está ali antes do i, mas não existe.

Não deve ser dito como soa de fato.


Então eu invento o que você me traz

invento as flores em minhas mãos

os brincos nas orelhas surdas

a corrente enforcando...

minha madre pérola

e os dedos apertados nos anéis prateados.


Invento o que me trouxe com estas palavras

Invento como inventaram o som de c, s ou z num x anulado.




Leticia Frederico
 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ando



Lendo e pensando,

agora escrevendo.

O raciocínio lento

incomodando,

vai voando,

estamos rejuvenescendo.

O trem andando,

ouvido atento,

eu bem que tento,

tento um tanto.

Estou apodrecendo,

a luz acendendo

estou queimando

no meio fio

água escorrendo

me apagando

entendo

entendo

estou desintegrando

lendo

pensando

escrevendo.

O verso

aversão

a palavra

o não.

Não lembro.



Leticia Frederico
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O amor torna-se um presente

que não tem mais fim.

Deixa rir, zombar,

deixa a gota cair na lágrima

ou na boca salivar pra mim.

Permite o riso entrar

sair, calar

deixa meu dia sumir

na nuvem fria.

Deixa no vento

o lamento,

que o melhor

pra tristeza

é tempo

e companhia.

 
 
Leticia Frederico.
 
 



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Curta

Eu quero o verso,
não a prova.
A palavra breve
displicente
acorda.
O desobediente
instinto 
da desordem.
A indecência tênue 
que a língua comporta.




Leticia Frederico.






terça-feira, 3 de setembro de 2013

é tão simples

Para abrir uma lata de sardinha

é preciso sentir fome.


Quantas fotografias você tirou

e não revelou o negativo...


Latas e rolos

sem pé nem cabeça...


é preciso que não se importe em sujar os dedos de óleo


e também que não se assuste com as antigas novas imagens.


Por volta de 1700, eu estava retirando

a capa de gordura de um belo pedaço de carne

com auxílio de uma faca.


Se não era eu,

era alguém que sentia fome.


Aqui vivem meus negativos,

minhas sardinhas sem cabeça.

Por isso acabei acordando mais tarde.







Leticia Frederico