terça-feira, 28 de maio de 2013

Cansaço
sem descanso
Cansa
de falar
permitir
Cansa
de explicar
intervir
Cansa
os ouvidos
tanta ladainha
tanta gente se dizendo viva
 cansa
toda a gente
gente que não cansa
gente que não dança
gente mansa.

Não sei
e quem sabe?
cansei
quem sobe
quem desce
quem esquece
que o cansaço
cansa
que gente
cansa
que cuidado perece
falece
não merece
o canto
não suporta
um tanto
não agüenta
um tranco
portanto
que exploda
tudo
todo
toda
e se afogue em  pranto.






Leticia Frederico

domingo, 26 de maio de 2013

Pois

Então explicita
à quem a quer 
à quem suplica
não deixe-a adormecida
pois sendo bela
deve ser escrita
sendo cela,
 pela liberdade grita,
sendo comprimida 
se intimida
deixa a caneta aflita...







Leticia Frederico

Resposta Incompleta

"Onde Foi Escondida?


Onde Se Faz Aparecida

De Gente De Ruas

De Transeuntes,

De Corpo Na Cama

Onde Se Canta

Sem Término Nem Inicio

Médio... Em Algum Ponto

Do Caminho Sem Fim,

Do Dia Seguinte Seguir Silencio

Silencia,

Choro de Lágrima Poesia

Amor Prosa Melodia

Querendo

Viva Ser Vista Lida

Onde Foi Escondida."




Edgar Carsan

Incompleta

Onde foi escondida sua poesia incompleta?

Dentro de livros em fragmentos dobrados,

entre bancos e gente de pé e sentada,

no silêncio estrondoso do vagão?

Onde esconderam sua poesia concreta?

no desenho abstrato, fora do corpo cansado,

sobre a pele suada, gelada,

nas folhas amarelas, no chão?

Pra onde fugiram suas palavras encantadas?

estão encaixotadas, sombreadas, abafadas

Repletas de pó e solidão...

De onde retornarão suas rimas recortadas?

Do sofrimento ensaiado, campos abandonados,

sono desperdiçado, do choro, das vozes

Partidas ao meio ou costuradas por suas próprias mãos?






Leticia Frederico

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Vamos Orar:
Ao depois.
Que ares leves levem à espaços distantes
sentimentos breves que nos carreguem.
E sentimentos longos
levem ao nosso espaço
um ar mais leve.
Demos espaço às palavras para que elas se conservem.
Que seu futuro acesso seja breve.
Depositemos  no papel teor
E aguardemos até que avaliem seu valor.
Lancemos ao invisível letras intangíveis
Para que se registre nova teoria
 E esperemos pacientemente
que esta se torne decifrável e lida.

Em nome do pai, do filho, dos que não se fazem de santos.
Além,
do irmão, do mendigo e do pobre iludido.







Leticia Frederico

terça-feira, 14 de maio de 2013

Nada se pode fazer contra o pensamento 
que delineia sombras, desbota cores
embaraça o silencio, 
prevê dissabores. 

Nada se pode fazer
contra o não se importar 
com as dores
petrificar o choro
silenciar e não dizer, 
esquecer.

Por isso não importa,
não tem importância,
não tem motivo,
é sem relevância.

Colha novas flores.





Leticia Frederico

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Não existem versos roubados
pois alma não se vende
não se compra
não se rouba
não se rateia.
Alma se doa
e a poesia se dá.





Leticia Frederico

Ele não sabe a dor que causou
como não sei a dor que causei
Não esvaziarei meu peito nas letras
para não adormecer-lhe a sola dos pés
Calarei meus dedos nesta sarjeta
enquanto sonho com novos anéis.

Cessarei antes que ele me veja
e retruque com os olhos minha aflição 
Andarei só, com meus devaneios 
sabendo que outros não entenderão
desconcertante é ver seus receios
seu reclamar repleto de dor
hipnotizante suas mãos em meus seios
vistas de cima
plenas de amor.






Leticia Frederico

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Ordem




-Dê-me motivos para estar triste!
Pedia-o a menina que queria ser triste.
Quisera sofrer nos dias de verão
Quando escorria-lhe da testa o sal
que brotava como em nuvem carregada.
 Porém tristeza em seu sorriso não havia não.

-Diga-me mentiras, insolências, decadências.
Diga-me que fostes, comestes, cuspistes e não te arrependestes
Que assim meus olhos fecharão inundados
Transbordarão afogados pelos dedos teus,
entristecerei meu corpo como há muito quis,
e serei como sonhava... claramente assombrada pela melancolia e solidão.

Mas ao contrário do que pretendia a menina,
como por mágica ou destino somente.
o labirinto de seus olhos resplandecia,
brilhava e  encantava sempre toda a gente.

-Faça-me querer sangrar quem me entristece os olhos,
faça-me apagar as luzes do quarto com ódio.

Suplicava-o

Todos os dias

Implorava-o

Enquanto o céu se abria

E as folhas enchiam-lhe de verde o coração

-Faça com que eu corra, enforque, arranque os tecidos para que não os toque
Rasgue o vestido e amarre pelas mãos
aquela que cortou minhas retinas
e fez delas cachoeiras em dias de trovão!

Mas  lírios e margaridas desabrochavam
 Tocavam músicas além das palavras,
O sol amarelo, entre nuvens,  esquentava
e seus pés logo escorregavam no salão.

A menina persistiu por longo tempo, sem êxito
na vontade incontrolável de entristecer.
Longos e incontáveis anos se passaram
Muitos outros beijos por ela se enlaçaram
 até que seu desejo, enfim, agonizou
esqueceu-se do seu próprio nome 
e de quando fora jovem na roda gigante.

Agora ela só ria.
as pupilas feito diamantes,
recordava apenas, com imensa nostalgia
de uma triste história que não teve um dia.





Leticia Frederico

domingo, 5 de maio de 2013

Espero 
pelas suas palavras
em meio ao caos desse infinito silêncio
Espero
enquanto ouço quebradas 
as horas do dia
batendo 
em todo o brilho 
dos outros sonhos
corrompidos pelas sombras 
do egoísmo
medonho.





Leticia Frederico

sábado, 4 de maio de 2013


Escuridão

Apagaram-se as luzes desde a hora que acordei
via um sorriso bem de perto
porém a boca se fechou
amedrontada pelo vazio dos olhos abertos.
Virou-se, fugiu de onde viera
percorrendo infinitas léguas
longe da solidão destes caminhos certos.
Variadas eram  as cores que ela olhava da janela
dissolvendo-as pelo paralelepípedo sujo
com seus olhos perdidos e molhados
secretamente socorreram seu coração
que recortado em minúsculos pedaços
distribuiu-se à sós por toda  multidão.
Estendida a mão sobre o vento e o nada
não rompeu-se ainda do dilacerado braço
não responde a aceno, nem aperto
aperta-se novamente contra o peito 
e passa
Esperando insone outra aparição.






Leticia Frederico
Luminosidade

E se pudéssemos escrever a poesia no vento?
ela se espalharia, entrando pelas narinas 
dos indivíduos
chegando à corrente sanguínea, 
como um vírus.
Rapidamente absorvida, atingiria seu alvo principal 
o pensamento.
E então as flores começariam a brotar entre as escadas
por cima das calçadas.
Pássaros de todas as cores lançariam-se às árvores
num canto clássico, sem tormento.
Perderiam-se os descontentamentos.
Bater de asas  
pulsar dos corações contaminados,
respiração ofegante, consequente desta nova peste,
ouvidos à distâncias inalcançáveis
pelos sentidos aguçados, 
transparecidos sob nossas vestes.
O aroma doce das manhãs mais claras
difundido em sopros
acomodado na saliva
em gotas de mel 
escorreriam desta nova ferida.
Por fim o olhar irradiaria luz
o sol em pó 
cobriria nossas mãos 
e então a luminosidade que rogavas, 
entre seus pés cansados 
tornaria-os leves e abençoados.
E voaríamos.





Leticia Frederico