-Dê-me motivos para estar triste!
Pedia-o a menina que queria ser triste.
Quisera sofrer nos dias de verão
Quando escorria-lhe da testa o sal
que brotava como em nuvem carregada.
Porém tristeza em seu sorriso não havia não.
-Diga-me mentiras, insolências, decadências.
Diga-me que fostes, comestes, cuspistes e não te arrependestes
Que assim meus olhos fecharão inundados
Transbordarão afogados pelos dedos teus,
entristecerei meu corpo como há muito quis,
e serei como sonhava... claramente assombrada pela melancolia e solidão.
Mas ao contrário do que pretendia a menina,
como por mágica ou destino somente.
o labirinto de seus olhos resplandecia,
brilhava e encantava sempre toda a gente.
-Faça-me querer sangrar quem me entristece os olhos,
faça-me apagar as luzes do quarto com ódio.
Suplicava-o
Todos os dias
Implorava-o
Enquanto o céu se abria
E as folhas enchiam-lhe de verde o coração
-Faça com que eu corra, enforque, arranque os tecidos para que não os toque
Rasgue o vestido e amarre pelas mãos
aquela que cortou minhas retinas
e fez delas cachoeiras em dias de trovão!
Mas lírios e margaridas desabrochavam
Tocavam músicas além das palavras,
O sol amarelo, entre nuvens, esquentava
e seus pés logo escorregavam no salão.
A menina persistiu por longo tempo, sem êxito
na vontade incontrolável de entristecer.
Longos e incontáveis anos se passaram
Muitos outros beijos por ela se enlaçaram
até que seu desejo, enfim, agonizou
esqueceu-se do seu próprio nome
e de quando fora jovem na roda gigante.
Agora ela só ria.
as pupilas feito diamantes,
recordava apenas, com imensa nostalgia
de uma triste história que não teve um dia.
Leticia Frederico
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