sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sinhá, vou lhe falar
Meu sangue é tão vermelho
Mas minha pele nunca há de corar
Você que me obrigou a neste dia
Trabalhar
Um dia espero que nao venha a se lamentar
Quando teu sorriso branco
Cheio de luz se apagar
E tua alma transparente se puser a enfim voar.
Zumbi... zumbi.... zumbido?
É só uma mosca no teu ouvido,
Deixa pra lá
Veste teu vestido
Este, que com minhas mãos, acabei de passar
E aproveite o feriado para poder passear
Que ao fim da tarde o meu ônibus vou correr pra apanhar
E pro meu lar eu vou voltar
Amanhã, você também vai enforcar?
Eu hei de bem cedo aqui chegar
Sua casa vou arrumar
Pra sua fome, cozinhar
Pra seu aceio, vou limpar
Também no sábado, pra sua casa vazia
Devo retornar
Domingo é de alforria
Boa noite
Bom dia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ouvi dizer
Que feliz
O homem não escreve bem
Que alegre
O homem não canta fortemente
Que contente não dança tão vivamente
E que quando dominado pela dor
Inspira-se
Sorri!
Que modo mais belo de ser triste
Chorando maravilhas
Resmungando melodias
Pisando nuvens tão macias
Pensei:
Será verdade tal leviandade contra a alegria?
Creio que não, meu bem.
Tal realidade
Seria com a felicidade
uma tremenda covardia.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Parte da população
No ano de 2014
Sedenta por repressão
Penso nas funções cerebrais
Nas conexões neurais
No eterno retorno
No apocalipse
Só encontro egoísmo
Como resposta
Mastigo
É difícil engolir
Penso na escola
No amor materno
No abandono
No caráter
Só acho egocentrismo
Como explicação
Salivo
É impossível deglutir
Parcela do povo
Desejando opressão
Querendo cabresto
Manifestando separação
Penso em Karma
Em vida passada
Penso na leitura
Penso no nada
Só encontro ego inflado
Como nexo
Vomito

domingo, 2 de novembro de 2014

Onde está minha família?
Nas células
Dentro do útero
Num gemido
Minha família encontra-se na sala de parto
Na de espera
No ouvido
Entre tilintar de bisturis
No choro
Num derramar de sangue
Num cordão
Num umbigo
banhado por nove dias no álcool
Minha família está aprendendo a andar
Mas seus joelhos ainda estão moles e com a mão apara o tombo
Minha família dorme no sofá
Está ainda aprendendo a falar
Está trocando as letras
Minha família escreveu seu nome ao contrário
E está tirando tudo de dentro do armário
Pra depois, novamente colocar
Minha família está esperando a neve cair
O frio apertar
E o dia do avião voar
Ela está falando outra língua
Está pensando se, quem sabe um dia ainda, poderá voltar
Minha família tem olhos de toda cor
Tem pele de todo tom
Está tentando cantar
Está na noite
Provavelmente bêbada
Acreditando que não precisa mais trabalhar
Minha família está procurando um lugar coberto na calçada pra deitar
Amanhã ela deve acordar com o sol em cima de seu rosto
E os passos de quem passeia no domingo vão a despertar
Minha família está comprando roupas
Esta guardando tudo dentro de alguma bolsa
Pra quando o neném chegar
Minha família está com sede
Está deitada numa rede
Esperando o tempo passar
Ela está dizendo por aí
Que ainda acredita num mundo mais justo
Ela está pensando em fazer um bolo de aniversário mais gostoso que o da loja do primeiro andar
Minha família é velha e vende mousse de maracujá
Está trabalhando duro
Está pensando no futuro
Está no presente sem se amedrontar
Está perto da praia
Está só na montanha
Está contando os dias para viajar
Minha família está aí há tantos anos
Está se separando
Esta procurando por um novo lar
Minha família está dormindo
Está indo
Minha família está vindo
E levantará sorrindo
Quem viver verá.