sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Meu filho ainda não aprendeu a amarrar o cadarço
Eu não lembro se sabia
amarrar cadarços sozinha na idade dele.
Penso se, se soubesse, isso teria importância
hoje que não tenho tempo
de ensina-lo a amarrar seu cadarço.
Meu filho ainda não sabe que amarelo é yellow.
Isso, deveras, na idade dele eu também não sabia.
E penso hoje se, se soubesse, alguma coisa mudaria
agora que não tenho tempo de pergunta-lo se yellow
é a cor do sol de dia.
Ele não sabe escrever sozinho meu nome ainda
Tento lembrar se na idade dele
o nome de minha mãe eu sabia
e vejo que não me lembro.
E penso em morar no campo,
aprender a tirar da vaca um leite forte,
aprender a contar mais com a sorte
de uma colheita,
aprender a dizer que não quero morar mais
na cidade onde o pavão se enfeita.
Aprender a desamarrar o cadarço
e dormir na grama.
Esquecer à bordo meus pertences, 
que a mim nunca pertenceram
e pintar num pano junto ao meu pequeno menino,
filho do mundo sem ninho,
uma lagoa com patos de bico amarelo e
pena branca.
Mas um bêbado esbarra em minhas mãos
e as teclas somem neste novo papel
que não é feito de planta.
 
 
Leticia Frederico

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