sexta-feira, 7 de março de 2014

Querido mendigo,
peço que não me esqueça
embora minhas ruas estejam tão sujas
peço que não padeça
Lhe escrevo
para implorar
que não se esqueça
que não use chinelos
e deixe que no seu pé seja eu uma casca tão espessa
que não deixe os cacos de vidro cortar
que nenhuma agulha possa ferir
e nem um prego enferrujado faça gangrenar

não esqueça
não lave os cabelos
deixe-os absorver da chuva todas minhas impurezas
deixe que no couro eu me transforme
também em uma casca tão consistente
que consiga bloquear até mesmo dentro da sua cabeça
que nenhuma unha possa coçar
nenhum pente pentear
nenhum vergalhão tente atravessar
para que você não esqueça

não esqueça 
deixe o gosto da boca ser sempre amargo
não trague nada que não seja
um álcool passado
um perfume já estragado
uma guimba suja de qualquer cigarro
e deixe que eu ainda cresça entre seus lábios
desça pela garganta até o estômago
como uma dura carapaça
que não deixa que a fome lhe estremeça
só para que você não me esqueça

talvez no fim a morte seja mesmo só luz
e sejamos todos nós apenas primaveras azuis.







 


 

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