sábado, 16 de novembro de 2013

Escritos sobre o papel eles ainda dançam
Dançam ao som de uma orquestra africana
Lhes seria cruel uma contra-dança
na contra-capa de um vinil
pendurado na parede
do quarto abafado.
Dançam com pés no chão sob um céu escuro.
Depois o sol cozinhou seus corpos 
enquanto dormiam até tarde
enquanto esqueciam da noite
o dia passava.
A pele desmanchava
entornando tinta
no lençol lavado.
Do que eles falavam...
eram mudos
mudos em seu tempo
Mas sobre o papel
cantavam
transformaram-se em versos
mas os versos são tão surdos
que não se ouve a orquestra ao fundo
não se ouve os pés batendo no chão
não se ouve o som abafado do quarto
nem do vinil pendurado
não se ouve o tocar das mãos
Viraram textos
virando a noite
mas os textos são cegos
e não os enxergam
Estão perdidos
cada qual em seu mundo
como é comum
a todo ser moribundo.


Leticia Frederico

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