A senhora e seu tecido velho marrom
de onde vieram umas gotas do meu sangue
misturado no puído colchão,
teceu cortinas de crochê nas janelas que dão pro quintal.
Me lembro dos dedos furados sem dor,
a touca na cabeça e a casa com jeito de flor.
Do andar leve e silencioso
e da fala baixa em tom carinhoso.
Vieram daquelas gotas.
Meu ritmo que se solta na roda,
meu ouvido que toda maldade suporta,
os ombros dilacerados pela prova
e as mãos que não cansam de tocar um tambor.
Vieram daquelas hemácias
as pintas que colorem meu peito
brilham em minha barriga
e enfeitam o dedo mindinho do meu menino querido.
Foi aquela alma transparente
que deixou o velho tecido marrom,
foi morar num céu colorido
e que até hoje em sonho fala comigo.
Leticia Frederico
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