Eu vejo animais racionais
saudosos de uma ditadura
coloco-os no pau-de-arara
e pergunto se aguentam
por mais um minuto a tortura.
No afogamento
enfio suas cabeças na água
interrogo se aguentam
só mais um segundo de sofrimento.
Às vezes sonho que me afogo
outras que estou livre no mar
os dois sonhos me dão medo
mas prefiro as ondas gigantes
ao desespero de morrer sem ar.
Observo seres pensantes
saudosos dos tempos do ouro, cana-de-açúcar e senzala
jogo-os em um navio
pergunto se aguentam o cheiro que dele exala
No tronco, com as mãos amarradas
questiono se suportariam mais umas chicotadas.
Peço que me mostrem os dentes
tiro-lhes o convívio de seus parentes
e olho de cima pra ter certeza
de que continuariam sorridentes.
Algumas noites
sonho que estou sendo chicoteada
e outras, que com as próprias mãos,
arrebento a corrente de um escravo.
Os dois sonhos me causam dor
mas prefiro as mãos dilaceradas,
que do chicote sentir o estalo e o calor.
Tenho visto inteligências raras
satisfeitas com o sistema vigente
e em volta de seu pescoço
além de cartões de crédito
precisando cada vez mais de correntes
roendo das notas
até o osso
pousando e lendo revistas Caras.
Mando-os pra favela
pra rua
ou pra penitenciária
acendo-lhes umas pedras quentes
e assisto suas cabeças dementes
fazendo crack
enquanto trincam os dentes
Pergunto afinal se aguentam
um outro trago das tais
E eles berram:
Me tirem do inferno
preciso de mais
preciso demais...
Com isso ainda não sonho
mas aqui continuo escrevendo
sobre esse mundo
tão enfadonho.
Leticia Frederico
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