sem notícias.
solta na maré.
corre entre meus calcanhares
na leve correnteza
a água clara
transparentemente fria.
ao longe
quase invisível, bóia
uma pequena garrafa de poesia.
seca de saudade
de navios que não aportaram.
naufragados
escorregadios
sem tesouros descobertos
distantes e desertos.
apenas uma linha
corta meu céu.
ela o separa do mar,
que não tem espuma
só areia
tem meus pés
procurando a areia.
meus cabelos secos
estão presos
como aquele papel
que espera ser alcançado.
mas meus cabelos ainda podem sentir o vento.
minha pele ainda pode sentir o vento
mas não sabe pra que lado ele vai
pois não ha vento
e a garrafa me parece uma miragem.
Existe?
por um momento creio que não
até que outra onda
a levanta e mostra-me que ainda bóia.
ela não voa,
não possui ainda asas.
não tem voz.
também não aprendeu a nadar.
a poesia
continua intacta
seca, exposta ao sol
sob o céu sem nuvem
sem chuva nem brisa
sem suor,
muito menos tempestade
e meus pés não podem contra a correnteza
que nos carrega.
espero então que o tempo vire.
talvez um redemoinho,
talvez alcançaremos a espuma.
soltarei o cabelo e aqueles versos enfim
desfolharão ilesos
tocando meus dedos.
se possível, sem cacos de vidro.
Leticia Frederico
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