segunda-feira, 8 de julho de 2013

solta

sem notícias.
solta na maré.
corre entre meus calcanhares
na leve correnteza
a água clara
transparentemente fria.

ao longe
quase invisível, bóia
uma pequena garrafa de poesia.
seca de saudade 
de navios que não aportaram.
naufragados
escorregadios
sem tesouros descobertos
distantes e desertos.

apenas uma linha 
corta meu céu. 
ela o separa do mar,
que não tem espuma
só areia
tem meus pés 
procurando a areia.

meus cabelos secos
estão presos
como aquele papel
que espera ser alcançado.
mas meus cabelos ainda podem sentir o vento.

minha pele ainda pode sentir o vento
mas não sabe pra que lado ele vai
pois não ha vento
e a garrafa me parece uma miragem.

Existe?
por um momento creio que não
até que outra onda
a levanta e mostra-me que ainda bóia.
ela não voa,
não possui ainda asas.
não tem voz.
também não aprendeu a nadar.

a poesia
continua intacta 
seca, exposta ao sol
sob o céu sem nuvem
sem chuva nem brisa
sem suor,
muito menos tempestade
e meus pés não podem contra a correnteza 
que nos carrega.

espero então que o tempo vire.
talvez um redemoinho, 
talvez alcançaremos a espuma.
soltarei o cabelo e aqueles versos enfim 
desfolharão ilesos
tocando meus dedos.

se possível, sem cacos de vidro.





Leticia Frederico

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